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Súmário

 

O INDIVÍDUO, O MUNDO CORPORATIVO E A CONCORRÊNCIA SUBLIMADA.

LINHAS BÁSICAS AO ESTUDO SOCIOLÓGICO DE INDIVÍDUO E SOCIEDADE: AS AMBIGUIDADES DIALÉTICAS

AS RELAÇÕES HUMANAS E A INSUFICIÊNCIA DE SUA PSICOLOGIA SOCIAL: NOTAS CRÍTICAS SOBRE A MENTALIDADE RESIGNADA

LA SOCIOLOGÍA DE LA VIDA PSÍQUICA DELANTE DEL PROBLEMA DE LA COMUNICACIÓN SOCIAL: UNA INTRODUCIÓN

UM SOCIÓLOGO PELO JORNALISMO: ARTIGOS PUBLICADOS NO PROJETO OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                   

 

 

                                                                                                                                                                                                  

 

 

 

 

 

Posted on June 22, 2008 by Jacob (J.) Lumier

 

 

A Concorrência sublimada perde seu efeito de estímulo ou incentivo deixando em seu lugar as rixas que desgastam as relações interpessoais. Aliás, um dos aspectos da falta de motivação é que as recompensas distribuídas nas organizações para estimular a aplicação e o empenho estão referidas a um quadro em que a concorrência como valor já não encontra repercussão na experiência. A sociedade liberal clássica comportava uma interpenetração do aspecto econômico e do aspecto psicológico.

 

Hoje em dia, o indivíduo alvo das expectativas de promoções e premiações sabe de antemão que as relações nas hierarquias do mundo corporativo são variáveis e que deve se agarrar às vantagens que consegue. Sobretudo, sabe que o peso específico do indivíduo nas relações empresariais não tem o alcance que teve nas sociedades realmente movidas pela livre iniciativa, desprovidas que eram as empresas dos controles econômicos e financeiros que hoje limitam a produção.

Sociólogos notáveis que aprofundaram as análises dos processus psicossociológicos da reificação, estudaram as relações interpessoais cotejando a literatura do individualismo e o mundo da economia de mercado. Observando o romance no século XX constatou-se que, no anverso do desaparecimento mais ou menos acentuado do personagem individual com sua busca humana de autorealização e autenticidade nas relações sociais, foi acentuado o reforço da autonomia dos objetos.

Constatação esta que logo faz lembrar a observação de que as estruturas auto-reguladoras da economia de troca (no ápice das quais pontificam os controles de preços, os Bancos Centrais e o sistema do Fórum Econômico de Davos) levam ao deslocamento progressivo do que Lucien Goldmann chamou coeficiente de realidade do indivíduo cuja autonomia e atividade são transpostas para o objeto inerte [Ver: Goldmann, Lucien: Pour une Sociologie du Roman, Paris, Gallimard, 1964, 238 págs. Há tradução em Português].

É claro que o sociólogo tem em conta que, como transposição do coeficiente de realidade do indivíduo para o objeto inerte, a reificação é um processus psicológico permanente, agindo secularmente no âmbito da produção para o mercado.

Além disso, para desenvolver o aspecto concreto das estruturas reificacionais o sociólogo não deixa escapar o mencionado modelo de sociedade liberal clássica como comportando uma interpenetração do aspecto econômico e do aspecto psicológico.

A periodização da sociologia econômica é a seguinte:

(A)Š fase da economia liberal se prolongando até o começo do século XX, caracterizada por manter ainda a função essencial do indivíduo na vida econômica (e por extensão na vida social).

Nesta fase, a referência sociológica principal é a constatação de que, no âmbito da interpenetração do aspecto econômico e do aspecto psicológico, a regulação da produção e do consumo em termos de oferta e demanda se faz por um modo implícito e não consciente, impondo-se à consciência dos indivíduos como a ação mecânica de uma força exterior.

Desta forma, todo um conjunto de elementos fundamentais da vida psíquica desaparece das consciências individuais no setor econômico, para delegar suas funções à categoria preço, que aparece como uma propriedade nova e puramente social dos objetos inertes, os quais, por sua vez, passam então a guardar as funções ativas dos homens, a saber: tudo aquilo que era constituído nas formações sociais pré-capitalistas pelos sentimentos transindividuais, pelas relações com os valores da afetividade que ultrapassam o indivíduo, incluindo o que significa a moral, a estética, a caridade, a fé. Ou seja, através da oferta e demanda os objetos inertes adquirem a dianteira sobre os sentimentos transindividuais projetados para fora de si.

Daí porque no romance clássico os objetos têm uma importância primordial, mas existem somente por meio do trato que lhe dão os indivíduos.

(B) ŠEntretanto, essa situação muda na fase dos trustes, monopólios e do capital financeiro, observada no fim do século XIX e, notadamente, no começo do século XX, tornando-se acentuada a supressão de toda a importância essencial do indivíduo e da vida individual na interior das estruturas econômicas.

(C)Š Na fase do capitalismo de organização, observado depois dos anos de 1930 pela intervenção estatal impondo os mecanismos de auto-regulação do mercado, se constata, em modo correlativo à supressão progressiva da importância essencial do indivíduo, não somente a independência crescente dos objetos, mas a constituição desse mundo de objetos em universo autônomo tendo sua própria estruturação.

Artigo elaborado por Jacob (J.) Lumier e integrado como referência na Page Facebook "Produção Leituras" < https://www.facebook.com/Proclise >
 

[Creative Commons License]
Esta obra está bajo una licencia de Creative Commons.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Texto Base para Palestra

Por

Jacob (J.) Lumier

Sociólogos sem Fronteiras em Rio de Janeiro SSF / RIO

 

Distribuído no local da atividade no Rio de Janeiro, em 09 de Maio de 2012 [1].

 

 

Apresentação

A proposta de realizar esta palestra e a publicação do seu material de base surge para incentivar e tornar público o processo de criação e proclamação de SSF/RIO como integrada à rede Sociologists without Borders /Sociólogos sin Fronteras Internacional-SSFI, com divulgação das nossas oficinas de sociologia e solidariedade na Cúpula dos Povos por justiça social e ambiental [2], evento internacional paralelo à Conferência das Nações Unidas-ONU conhecida por Rio+20. 

O tema “Indivíduo e Sociedade” da presente palestra, e sua realização em local pertencente a uma entidade de filiação internacional atualmente engajada na educação informal e ambiental como é o caso da FBB/Rio, embora trate problemas de sociologia e tenha interesse para a cidadania, visa exatamente contribuir para uma reflexão em domínio conexo que alcança a psicopedagogia, a psicologia social, além da mediação do conflito sociedade – indivíduo nas relações humanas.

Rio de Janeiro, 9 de Maio de 2012

O autor Jacob (J.) Lumier

 

 

Sumário:

 

Apresentação   9

Observações Preliminares    13

Meu propósito_ 13

Minha crítica_ 14

Histórico do suposto conflito    15

A sociologia do século XIX_ 15

No começo do século XX_ 16

Conceito dialético de grupo_ 18

→Primeira Parte: Grupo e sociabilidade_ 18

→Segunda Parte: Grupos e sociedades globais 18

Classificação dos agrupamentos sociais particulares 19

Na segunda metade do século XX. 20

A sociologia do conflito    21

As variações das concepções 22

Os efeitos da disparidade_ 23

Símbolos estandardizados e efervescência_ 23

O caso da psicologia social em base psicanalítica_ 23

A distinção juízos de realidade e juízos de valor 25

A visão de conjuntos em sociologia    26

Montagem do conflito_ 27

Paralelismo Dialético_ 27

Conflito e mal-estar 28

Insuficiência da expressão exterior 29

O desvio vigilantista no voto obrigatório_ 29

Voto obrigatório e mal-estar 30

O indivíduo na sociedade_ 31

O psiquismo coletivo_ 32

As Consciências e os Quadros Sociais 33

Sociabilidade e alienações 33

O social e o individual 34

 

 

 

 

Observações Preliminares

 

Meu propósito

Para fazer uma introdução nesta palestra, quero destacar que as análises sociológicas sobre indivíduo e sociedade que vou comentar aqui têm interesse nas áreas de educação, assistência social e desenvolvimento humano.

São análises relatadas por influentes sociólogos do século vinte que estão em conexão com a psicopedagogia, a psicologia social e, notadamente, têm alcance e aplicação na compreensão do conflito sociedade - indivíduo.

Como todos sabem os manuais de psicologia social sempre debatem o problema da integração do indivíduo na sociedade. Em psicopedagogia por sua vez, esse problema corresponde e se desdobra no estudo da socialização da criança.

Evidentemente, o propósito de minha palestra é bem restrito. Pretendo apresentar nada mais do que um resumo sobre a compreensão sociológica das ambiguidades dialéticas em torno de indivíduo e sociedade.

 

Por que falar de Indivíduo e Sociedade?

 

Sociólogos sem Fronterias SSF/RIO faz sociologia pública, defende a realidade da sociedade e do indivíduo, e desenvolve uma resposta sociológica para desmontar a representação neoliberal de que a sociedade não passa de uma coleção de indivíduos arrastados pelas expectativas de ganhar mais.

Depois que Margaret Thatcher questionou o modelo de Bem-Estar, no contexto da queda do muro de Berlim, inaugurando os anos noventa, e sustentou que se deve proteger o sistema financeiro e não os direitos sociais, difundiu-se muito a retórica neoliberal de que a sociedade não existe, mas só há mercado.

Essa retórica não somente valoriza o antigo atomismo social como filosofia que reduz a sociedade a uma coleção de indivíduos sem ligação funcional, mas pendura essa filosofia às expectativas de mercado.

Em face das concepções atomistas em certas disciplinas psicológicas, a palestra em pauta visa esclarecer que o indivíduo e as relações humanas e sociais não são identificadas ao sistema nem ao mercado; não se reduzem à busca de vantagem diferencial que caracteriza o mercado e a hierarquia das desigualdades de posição econômica.

A tese dos neoliberais de que não existe sociedade, mas só há o mercado, não resiste à experiência.

A sociedade vive na consciência coletiva e existe em realidade social. O fato de que as pessoas tenham um interesse próprio quando estão nas relações socias não significa busca do lucro, não significa que estão fazendo negócios para ganhar mais dinheiro. Esse interesse pode ser o desejo de realizar obras, participar e ampliar seus conhecimentos.

O sociólogo não deve limitar as relações sociais ao ponto de vista do controle capitalista. Mas é preciso esclarecer que entre sociedade e indivíduo há sim ambiguidade, isto é, ora a perspectiva individual faz prevalecer sua liberdade, ora a sociedade prevalece com suas exigências e engrenagens.

Há um pluralismo social efetivo. A sociedade é um macrocosmo de agrupamentos e formas de sociabilidade e cada agrupamento tem obras para realizar como a moral, educação, o conhecimento, o direito, ainda que seja um agrupamento com funções econômicas, basta lembrar o exercício da responsabilidade social nas grandes companhias.

 

Minha crítica

Eu quero colocar inicialmente algumas observações sobre as diferenças e as aproximações entre psicologia social e sociologia. Neste sentido, quero propor alguns comentários sobre a imagem de senso comum que aparece sempre que alguém faz uma representação sobre a maneira em que percebe o indivíduo. Ou seja, para o homem de senso comum o indivíduo humano existe e se afirma em sua diferença na medida em que sofre a pressão dos ambientes sociais em que está inserido.

No prolongamento dessa imagem, quero assinalar como equivocada a maneira de tratar indivíduo e sociedade como termos que estão em oposição um ao outro.

►Mas não é tudo. Minha crítica se dirige à crença de que a sociedade apareceria ao indivíduo através do elemento de coerção e seria representada como foco da repressão aos desejos individuais.

Quero desde logo assinalar que a teoria da coerção do mais forte em sociologia denuncia um abuso contra os direitos humanos.

Praticado em escala das relações humanas nas hierarquias organizacionais, a teoria de que a sociedade se manifesta ao indivíduo através da coerção serviu para denunciar um abuso atualmente reconhecido na legislação sobre o assédio moral.

►Quero afirmar por fim que é insuficiente considerar a vida psíquica do ser humano a partir da expressão exterior, dos aspectos físicos e materiais que o indivíduo e a sociedade ambos apresentam.

***

 

Primeiro Capítulo

O Histórico do suposto conflito entre sociedade e indivíduo

 

A sociologia do século XIX

 

A integração no conjunto da realidade social ultrapassa qualquer força de imposição, qualquer força que se imponha logicamente do exterior, ainda que chamada a distribuir prestígio e influência.

 

Bem antes do aparecimento da sociologia,  o suposto conflito entre a sociedade e o indivíduo relevava de exercícios retóricos aos quais se ligavam as disputas entre as teses individualistas e coletivistas, ou entre as posições contratualistas e institucionalistas.

A sociologia do século XIX deixou-se envolver nessas discussões inócuas em que se tratava do indivíduo ou da pessoa humana, por um lado e, por outro lado, a sociedade ou a coletividade, como se tais termos fossem entidades abstratas, já completamente acabadas e irredutíveis defrontando-se em inexorável e eterno conflito.

Mas essas querelas prosseguiram depois do nascimento da sociologia até o começo do século XX. Daí a exigência de crítica aos erros principais que se trata de eliminar, para evitar sua interferência prejudicial na análise sociológica atual.

A integração no conjunto da realidade social ultrapassa qualquer força de imposição, qualquer força que se imponha logicamente do exterior, ainda que chamada a distribuir prestígio e influência.

 

No começo do século XX

 

Em maneira preliminar, se constata haver sido dessas discussões que apareceu a corrente muito difundida das teorias de compromisso ou de interação[3], que não reconhecem a consciência coletiva senão nas estatísticas sobre comportamentos ou sob o aspecto de um somatório das opiniões individuais retratadas nas enquetes.

Nessa limitada orientação se preconiza que no nível psicológico da realidade social qualquer interesse está concentrado sobre a psicologia interpessoal (avaliações de uns sobre os outros e inversamente) em detrimento da psicologia coletiva.

Há um desprezo das funções intelectuais e voluntárias, com predominância do aspecto exclusivamente emotivo (como no psicodrama) e, neste, ao aspecto da preferência e da repugnância, deixando de lado o aspecto mais significante que é a aspiração.

 

►Em oposição a essas teorias equivocadas, que, sem diferenciá-la, incorrem na redução de qualquer sociabilidade à simples interdependência e interação recíproca, sociólogos notáveis como Durkheim (França) e Cooley (EUA) [4] ensinaram que, por irredutíveis aos indivíduos, os fatos sociais exercem sobre eles uma preeminência psicológica e moral, e que, em consequência, todas as interações, todas as relações com outrem (interpessoais e intergrupais) são sempre fundadas sobre participações diretas ou fusões parciais em os Nós como totalidades. As relações com os outros só acontecem porque nós [os Nós-outros] estamos lá.

Vale dizer, em maneira justa, chegou-se à compreensão de que o indivíduo volta a encontrar o social igualmente nas profundidades do seu próprio Eu.

 

Para o sociólogo não há psicologia interpessoal fora da psicologia coletiva e esta encontra seu domínio dentro da sociologia.

 

►Reconhecendo a imanência recíproca do individual e do coletivo, para o sociólogo não há psicologia interpessoal fora da psicologia coletiva e esta encontra seu domínio dentro da sociologia. Isto significa que, ultrapassando a ideologia dos neoliberais de que a sociedade não existe e que o foco das interações é o mercado, as relações com os outros acontecem em presença da sociabilidade por fusão ou por oposição a um nós, e estes, por sua vez, constituem as manifestações indispensáveis para que os agrupamentos particulares venham a entrar em formação social [5].

 

 
Conceito dialético de grupo

 

Primeira Parte: Grupo e sociabilidade

 

Daí a importância do conceito dialético de grupo, que inclui os Nós e as relações com os outros e participa das sociedades globais e suas estruturas.

Para o sociólogo, só é possível falar de grupo diante das seguintes características: Quando (a) as forças atraídas para o centro predominam sobre as forças repelidas para a periferia; (b) quando os Nós convergentes predominam sobre os Nós divergentes e sobre as diferentes relações com outrem. 

Daí a percepção desenvolvida na sociologia que em todo o microcosmo social há virtualmente um grupo social particular que se afirma pela mediação da disposição para reagir em comum.

Todo o agrupamento social particular é uma unidade coletiva real, mas parcial, que (a) é fundada nas disposições para reagir em comum; (b) orientada para uma obra comum a realizar, isto é, o grupo é engajado na produção das ideias como o Direito, a moral, o conhecimento, a educação, etc.; (c) uma unidade que é observada diretamente nessa objetivação de modelos e condutas, como tendência para uma coesão relativa dos Nós e das relações com outrem.

 

Segunda Parte: Grupos e sociedades globais

 

No conjunto dos agrupamentos particulares há vai e vem entre independência e a dependência em relação às sociedades globais. Há competição e combinação em relação às mesmas.

Desta forma, observa-se que os agrupamentos mudam de caráter em função dos tipos de sociedades globais em que se integram (podem ser mais abertos ou menos; podem se tornar grupos a distância, podem ser mais conservadores ou menos, podem ser frequentemente renovados ou não, etc.).

Devem ter em conta que, por sua vez, os tipos de agrupamentos são mais submetidos às condições históricas e geográficas de conjunto, e ora formam blocos maciços, ora se dispersam, sofrendo de maneira manifesta os efeitos do modo de operar da sociedade global.

Aliás, a ingerência das sociedades globais em regime capitalista é bem percebida nos dias que correm, quando o sistema financeiro internacional mostra-se capaz de impor a coerção econômica contra as instituições parlamentares e democráticas, forçando-as para impor severas medidas restritivas aos direitos sociais, como podem ver no noticiário sobre países como Grécia, Portugal, Itália e Espanha.

 
Classificação dos agrupamentos sociais particulares

 

Existem seis espécies de agrupamentos funcionais, seguintes:

 (1) - os agrupamentos de parentesco: clã, família doméstica, família conjugal, lar, etc.;

(2) - os agrupamentos de afinidade fraternal, que são fundados sobre uma afinidade de situação, compreendida aí a situação econômica, mas que também podem ser fundados sobre uma afinidade de crença, de gosto ou de interesse: por exemplo: os agrupamentos de idade e de sexo, os diferentes públicos, os agrupamentos de pessoas tendo os mesmos rendimentos ou fortunas;

(3) - os agrupamentos de localidade: comunas ou comarcas, municipalidades, departamentos, distritos, regiões, Estados;

(4) - os agrupamentos de atividade econômica, compreendendo todos os agrupamentos cujas principais funções consistem em participação na produção, nas trocas, na distribuição ou na organização do consumo;

(5) - os agrupamentos de atividade não lucrativa, como os partidos políticos, as sociedades eruditas ou filantrópicas, clubes esportivos, etc.;

(6) - os agrupamentos místico-extáticos, como as igrejas, congregações, ordens religiosas, seitas.

Há uma tensão ininterrupta entre as classes sociais em luta e as sociedades nas quais são integradas. O determinismo das classes não é um princípio universal. Há descontinuidade entre a estrutura de classes e as sociedades globais.

Nessa descontinuidade observa-se a dialética entre independência e dependência, sendo essencial o papel dos agrupamentos particulares, seja através das instituições parlamentares, seja através dos movimentos e redes de organizações sociais, porque impedem que a unificação pelo modo de operar das sociedades globais, cuja integração dos fatos é a mais eficaz, seja efetuada sem a intervenção da liberdade humana, sem a intervenção da liberdade de escolha, da liberdade de decisão, da liberdade de criação.

Ou seja, o papel dos agrupamentos particulares em seus movimentos sociais é não deixar escapar nem a descontinuidade, nem a continuidade entre o determinismo das classes sociais e o das sociedades globais.

 

Na segunda metade do século XX.

 

Para a sociologia da segunda metade do século XX, o debate a propósito da relação entre o indivíduo e a sociedade foi considerado encerrado. Do ponto de vista dos fatos, não há como continuar a aceitar que se considere a sociedade e o indivíduo como entidades exclusivas e exteriores uma a outra, quando se trata em realidade de elementos impensáveis um sem o outro, cuja vida consiste precisamente em uma participação mútua.

Chegou-se à compreensão de que os dois termos indivíduo e sociedade são de uma ambiguidade extrema e que essa ambiguidade torna-se um impasse se nos obstinarmos em considerar os dois termos em oposição um ao outro.

A ambiguidade assim detectada será posta em relevo na análise sociológica diferencial ao rejeitar não a realidade do indivíduo e da sociedade, mas unicamente o erro inaceitável de que esses termos sejam tratados como entidades exteriores uma a outra.

 

(...) Continua

 

NOTAS DO PRIMEIRO CAPÍTULO

[1] Modificado em 30 de Setembro de 2012

[2] http://openfsm.net/people/jpgdn37/reflexao-e-critica/Sociologos-na-Cupula-dos-Povos2.pdf

[3] As teorias de compromisso ou de interação foram difundidas por autores formalistas como Simmel, Von Wiese, Weber, Mac Iver.

[4] Ao reconhecerem a preeminência psicológica e moral dos fatos sociais, Émile Durkheim (1858 – 1917) e Charles H. Cooley (1864 - 1929) definiram a nova direção que a sociologia assumiria no século vinte.

[5] Note-se que, na qualidade de pensamento que representou a muitos sociólogos do século XX, o crédito pelo reconhecimento da participação mútua é atribuído por Georges Gurvitch (1894-1965) ao filósofo americano John Dewey (1859 – 1952), por sua afirmação de que os dois termos indivíduo e sociedade são de uma ambiguidade extrema e que essa ambiguidade torna-se um impasse se nos obstinarmos em considerar esses dois termos como antitéticos.

_______________________________________

 

 

Continuação

 

 

Segundo Capítulo

A sociologia do suposto conflito entre sociedade e indivíduo

 

 

O problema da origem do conflito entre a sociedade e o indivíduo deve ser estudado em três linhas seguintes:

(a) origem do conflito em certas ilusões de ótica;

(b) origem do conflito no efeito de disparidade;

(c) origem do conflito em montagens inadequadas sobre níveis diferentes da realidade social.

 

► Item (a): o problema da origem do conflito de sociedade e indivíduo em certas Ilusões de ótica e as falsas interpretações.

Ao examinar os conflitos que são produzidos simultaneamente em os Nós e na sociedade constatamos que é uma ilusão tomá-los como conflitos entre a coletividade e os seus membros.

Quer dizer, há uma simultaneidade dos fatos sociais conflitivos que se verificam sob o aspecto individual e sob o aspecto dos grupos.

Podemos destacar as seguintes situações que estão neste caso.

A situação conflitiva de produtores e consumidores.

A análise da situação conflitiva de produtores e consumidores comprova que o conflito social aí característico ocorre ao mesmo tempo sob o aspecto individual (o Eu que se encontra integrado em os Nós) e sob o aspecto dos grupos em luta (os Nós que se encontram nas profundezas do Eu).

É o caso, por exemplo, de um autor de obras literárias que deseja obter o preço mais elevado possível para sua obra ao passo que, como consumidor, deseja adquirir obras por preço compensador.  Vê-se então que o conflito envolve o para-mim da reflexão própria daquele autor, seu foro íntimo, como indivíduo singular personalizado afirmando-se na cisão dos seus diversos Eu, e, em conexão com essa cisão, vê-se simultaneamente um conflito que pode efetivamente dividir os grupos (estruturados ou não) de produtores e de consumidores.

Série conflitiva dos diferentes Eu e dos diferentes grupos.

Em uma análise dos conflitos que opõem os diferentes Eu de um mesmo indivíduo representando diversos papéis sociais, por um lado e, por outro lado, os conflitos que opõem os diferentes grupos nos quais ele participa, comprova a não pertinência em considerarem esses fatos sociais conflitivos como um conflito entre a sociedade e o indivíduo.

É o caso em que cada um de um Nós próprio pertence ao mesmo tempo a vários grupos sociais particulares, e em cada um assume certo papel social podendo, então, desempenhar um número considerável de papéis sociais.

Como se sabe esses papéis sociais simultâneos que um indivíduo representa, seja como pai, marido ou filho; seja como empregado, operário, engenheiro ou patrão; seja como militante, cidadão, produtor ou consumidor, entram sem cessar em conflito, que pode ser verificado em duplo aspecto:

(a) – como um conflito no seu foro íntimo, onde se opõem os diferentes Eu daquele indivíduo, e...

(b) – na realidade social, onde se opõem os diversos grupos aos quais pertence o indivíduo. Portanto, não há em fatos conflito entre a sociedade e o indivíduo que nela se encontra integrado ou nela participa [i]. 

 

 

As variações das concepções de indivíduo e de sociedade.

 

No estudo das variações das concepções de indivíduo e de sociedade, a análise sociológica diferencial mostra que muitas vezes os cientistas sociais chegam a construir conflitos que se revelam artificiais, mediante o cotejo do indivíduo a um tipo de sociedade que não corresponde ao que ele está efetivamente integrado. 

A fim de ultrapassar o erro desse artificialismo, cabe lembrar que os antropólogos investigaram a estrutura da personalidade de base e puseram em relevo que as variações das concepções de indivíduo e de sociedade se efetuavam em paralelo rigoroso com as transformações da estrutura social, às quais corresponde sempre uma transformação do tipo de indivíduo [ii].

 

Os efeitos da disparidade

Mas não é tudo. No estudo das variações das concepções de indivíduo e de sociedade em paralelo com as transformações da estrutura social, observou-se o impacto dos efeitos da disparidade, como provenientes de um ritmo de adaptação desigual a condições bruscamente transformadas, atuando em alguns indivíduos e em algumas estruturas sociais, e que, portanto, nesses casos, a origem dos conflito entre a sociedade e o indivíduo seria explicada por esses efeitos.

A modernização acelerada produziu um efeito de disparidade que está na raiz tanto dos desvios e traumas individuais quanto das alterações e desequilíbrios na estrutura de classes, observados ao longo do século vinte.

Símbolos estandardizados e efervescência

Em vista de pôr em relevo o paralelismo entre a sociedade e o indivíduo, a análise sociológica diferencial passa em crítica certos procedimentos habituais da psicologia social do século XX que, todavia, são aplicados em maneira geral.

 Com efeito, é sabido que frequentemente se considera a vida psíquica do ser humano a partir da expressão exterior, dos aspectos físicos e materiais que o indivíduo e a sociedade ambos apresentam.

 

O caso da psicologia social em base psicanalítica

►Tal orientação insuficiente, que será questionada aqui, é, como se sabe, aquela adotada pela psicologia social em base psicanalítica, que preserva à crença de que a sociedade apareceria ao indivíduo através do elemento de coerção e deve ser representada como foco da repressão aos desejos individuais.

Essa orientação toma como centro de seus estudos a mentalidade individual, mas trata essa mentalidade individual como sendo exclusiva, como se fosse autossuficiente.

Desta maneira, a orientação da psicologia social em base psicanalítica se circunscreve aos estados psíquicos individuais. 

Quer dizer, a psicologia social em base psicanalítica procura sempre explicar a vida social pelos recalcamentos e complexos, assim como pelos conflitos entre os desejos individuais e os comportamentos sociais. Além disso, restringe os comportamentos sociais e os representa como dominados pelos modelos culturais e seus símbolos estandardizados.

Sem dúvida, a expressão exterior alcança o indivíduo, mas, como disse, é insuficiente considerar a vida psíquica do ser humano a partir da expressão exterior, dos aspectos físicos e materiais que o indivíduo e a sociedade ambos apresentam. 

►Ninguém tem dúvida de que indivíduo e sociedades estão sob o domínio dos hábitos, do costume, dos ritos, das práticas, dos modelos, dos símbolos estandardizados.

Constata-se isto como um fato. E muitos já compreenderam o ponto de vista crítico social de que a expressão exterior constitui uma espécie desprovida de ardor, uma crosta arrefecida da nossa atividade, notada quando fazemos coisas sem entusiasmo, ou quando, à beira do rotineiro, estamos cumprindo somente as regulamentações preestabelecidas impostas nas hierarquias organizacionais.

Nada obstante, deve-se advertir ser igualmente fato que indivíduo e sociedade, tanto um quanto o outro podem igualmente entrar em efervescência, penetrar através dessa carapaça mais ou menos rígida, agir, lançar-se em condutas inovadoras e criadoras.

Tanto é assim que, na psicologia social em base psicanalítica, o limite da mentalidade individual exclusiva veio a ser ultrapassado, quando se tentou combinar as ideias da psicanálise umas vezes com as teorias da alienação econômica no capitalismo (o fetichismo da mercadoria, a coisificação), outras vezes com a teoria dos papéis sociais.

Por esses caminhos, na psicologia social em base psicanalítica, chegou-se a estabelecer laços funcionais indissolúveis entre a pessoa humana e a realidade social, bem como entre a mentalidade individual e a mentalidade coletiva, deixando ver uma adaptação da psicanálise à sociologia – vejam a obra de Eric Fromm (1900 – 1980).

 

 

A correção do erro lógico e A distinção entre juízos de realidade e juízos de valor

 

Desta forma, foi corrigido um erro lógico fundamental que é a falta de distinção entre os juízos de realidade e os juízos de valor.

Desse erro decorre a confusão, pois em vez de explicar os desejos a partir da realidade social, constrói-se a realidade social em função desses desejos.

►Ou seja, para estabelecer laços funcionais indissolúveis entre a pessoa humana e a realidade social, bem como entre a mentalidade individual e a mentalidade coletiva, é preciso ultrapassar a falta de distinção entre os juízos de realidade e os juízos de valor.

A sociedade está sujeita a flutuações e até aos movimentos cíclicos, e o progresso retilíneo em direção a um ideal particular, tomado como um movimento constante, não pode valer mais do que para períodos determinados, – em outros períodos a sociedade pode orientar-se em sentido oposto ao ideal, ou por um ideal completamente diferente.

Quer dizer, existe variação constante nas tendências da sociedade que a análise sociológica busca descrever e explicar.

A falta de distinção entre os juízos de realidade e os juízos de valor dá lugar como disse a confusão. Quando, equivocadamente, se constrói a realidade social em função dos desejos torna-se impossível examinar a variabilidade, tira-se da sociologia seu objeto.

Os juízos de valor são as aspirações, os desejos e as imagens ideais do futuro, e formam uma das camadas da realidade social em seu conjunto, de tal sorte que o progresso em direção a um ideal (defendido pela filosofia da história) só pode intervir, na análise sociológica, unicamente em vista de integrar esse progresso ideal em um conjunto de fatos sociais que a análise se propõe explicar [iii].

 

A visão de conjuntos em sociologia

 

►Ao cumprir sua missão e estudar as variações do saber, o sociólogo não afirma de antemão se as orientações da sociedade são válidas ou não.

 

O ponto de partida da análise sociológica é sua visão de conjunto.  Quer dizer, o sociólogo busca as variações na sociedade quando constata o efeito da presença, combinação e funcionamento efetivo dos símbolos, conceitos, ideias, juízos.

Busca as variações quando estuda as formas da sociabilidade, quando estuda os Nós e os outros em suas relações, nas quais se alternam e se combinam variados graus de cristalização e de espontaneidade.

Por sua vez, essas relações dos Nós e dos outros, em que se combinam variados graus de cristalização e de espontaneidade constituem níveis múltiplos de realidade social e são forças dinâmicas de mudança.

Quer dizer, a partir desses níveis assim compreendidos como “níveis múltiplos”, o sociólogo elabora o conhecimento de que não existe tipo de sociedade vivendo uma coesão sem choques; de que nada se resolve nunca numa sociedade, pelo menos não definitivamente, só há graus de coesão e de disparidade.

Em realismo sociológico, indivíduo e sociedade são analisados no mesmo plano, de tal sorte que a suposta oposição de um e de outro se revela um conflito imaginado, e se reduz a uma tensão entre os níveis em profundidade, mostrando neste caso uma tensão entre os modelos do individual e os modelos do coletivo, incluindo as tensões entre os modelos estandardizados e as condutas efervescentes, observadas tanto na vida social quanto na vida individual.

 

Montagem do conflito

 

O sociólogo chamará, então, montagem do conflito da sociedade e do indivíduo ao procedimento adotado quando o psicólogo social toma por ponto de partida não a vertente des-estruturante, mas considera, ao contrário disto, o aspecto estruturante da sociedade, o aspecto do costume, dos ritos, práticas, dos modelos e, inadvertidamente, tomando-os em seu conjunto como o outro, lhes contrapõe o indivíduo considerado em uma conduta de efervescência criadora, isto é, o indivíduo que inova, inventa, cria.

Sem embargo, à margem dessa montagem a contemplar imaginativamente uma oposição inexistente entre diferentes níveis em profundidade da realidade social, a análise sociológica põe em relevo o fato de o indivíduo poder estar em paralelismo com a sociedade, aquém de qualquer conflito que os oponha um ao outro.

Considerado no mesmo plano, o indivíduo pode estar, por seu lado, tão submetido às suas próprias obras, às suas próprias práticas, aos seus próprios modelos e símbolos cristalizados (os modelos de conduta individual) quanto, pelo lado dela, pode a sociedade estar submetida aos seus próprios modelos de conduta coletiva.  

 

Paralelismo Dialético

 

Por consequência, diante da constatação de um paralelismo, o suposto conflito da sociedade e do indivíduo ou a oposição de um e de outro se revela um conflito imaginado, o qual, em realidade, sendo adotado o procedimento metodológico adequado de confrontá-los no mesmo plano, se reduz a uma tensão entre os níveis em profundidade, neste caso, mostrando uma tensão entre os modelos do individual e os modelos do coletivo, incluindo a tensão entre os modelos estandardizados e as condutas efervescentes, tensão esta observada tanto na vida social quanto na vida individual[iv].  

 

 
Conflito e mal-estar

 

O conflito de sociedade e indivíduo acontece nas relações de dominação, onde a subordinação do outro é percebida e se experimenta o mal-estar.

O mal-estar tem início no momento em que cada um de nós sente ser necessário estar consciente de uma obrigatoriedade constrangedora.

Como se sabe, o mal-estar se faz sentir na experiência de cada um lá onde a subordinação do outro penetra na formação das mentalidades. Quer dizer, sempre que os amparos à afirmação do indivíduo, notadamente a psicologia, deixam de vigorar ou simplesmente mudam de função e, ao invés de suscitá-la, passam a reprimir a afirmação individual positiva e mais ou menos consciente da liberdade pode-se constatar o mal-estar – seja como decaimento ou falta de vitalidade, seja como inquietação moral.

→Objetivamente, o mal-estar faz parte do processus em que, por um desenvolvimento posterior, os indivíduos se tornam socialmente constrangidos e se encontram equiparados ao sistema dominante na ambiência em que tomam parte. É esse processus geral de subordinação que caracteriza o conflito de sociedade e indivíduo.

►Acontece que a dominação não é total. As classes subalternas estão mais expostas ao processo geral de subordinação em razão dos mecanismos de reprodução das desigualdades sociais, notadamente os mecanismos de busca e distribuição da vantagem diferencial, bem como o receio do desemprego, que impulsiona para a subordinação, notando que é através desses mecanismos de psicologia coletiva que o controle pelo capitalismo tem eficácia.

Além disso, há também as relações no âmbito das hierarquias das organizações, com suas condutas preestabelecidas, onde é maior a chance de a sociedade aparecer como coerção, portanto em conflito com o indivíduo.

 

Insuficiência da expressão exterior

 

►Seja como for, é insuficiente considerar a vida psíquica do ser humano a partir da expressão exterior, dos aspectos físicos e materiais que o indivíduo e a sociedade ambos apresentam.

Observa-se a base morfológica da sociedade quando, por exemplo, olhamos as fotografias dos bairros e de cidades, ou certos ambientes de trabalho ou lazer. Os aspectos físicos e materiais dos indivíduos são igualmente observados quando descrevemos os objetos que as pessoas utilizam ou o que fazem quando os utilizam, nos mais diversos ambientes.

 A vida psíquica não é alcançada desse ponto de partida.

Somente quando levamos em conta a experiência humana nas formas de sociabilidade, em os Nós e relações com os outros, é que podemos aceder à vida psíquica, compreender e descrever as mentalidades, os juízos, as representações.

 
O desvio vigilantista no voto obrigatório

 

Neste sentido de buscar a vida psíquica a partir da expressão exterior é que se constata como falsa a crença de que a sociedade apareceria ao indivíduo através do elemento de coerção e seria representada como foco da repressão aos desejos individuais.

Daí, desse equívoco decorre o desvio vigilantista em que acontece o regime eleitoral do voto obrigatório nas democracias imperfeitas.

Isto é, a prática do voto obrigatório constitui um exemplo muito esclarecedor do embrulho a que pode levar a falsa crença no elemento da coerção como fator de socialização e integração do indivíduo.

O primeiro aspecto negativo muito notado nessa prática é que o voto obrigatório atende a uma abusiva exigência de vigilância indevida sobre as classes subalternas, já que está projetado sobre uma ameaça punitiva: é um ato eleitoral que os votantes exercem sob ameaça de uma pena legal.

Na ideologia dos neoliberais que sustentam esse regime da imperfeição, os eleitores devem ser vigiados por uma lei punitiva para que não deixem de comparecer ao cartório eleitoral.

Lembrando o behaviorismo pavloviano, imagina-se que a vigilância é necessária para “ensinar o povo a votar”, isto é, espera-se que, como mecanismo de coerção, a vigilância crie um condicionamento psicológico sobre os cidadãos, induzindo-os para que reconheçam a sociedade que exige de cada um o comparecimento ao cartório eleitoral nos dias de eleições.

 

Voto obrigatório e mal-estar

 

Seja como for, o desvio vigilantista deve ser questionado em razão de que é viva a experiência do eleitor brasileiro atual, que se formou, e afirmou sua consciência democrática, ao participar na campanha das Diretas Já, nos anos oitenta. Daí o mal-estar na prática do voto obrigatório, que, pela imposição da obrigatoriedade, encobre uma injustiça histórica ao desqualificar indevidamente o eleitorado de nossa democracia, o qual, por seus atos coletivos, demonstrou ao mundo alta maturidade cívica e inegável capacidade política para exercer livremente seu voto nas eleições.

Com efeito. O mal-estar tem início no momento em que cada um de nós sente ser necessário estar consciente dessa obrigatoriedade com duplo constrangimento: no ato de votar e na imposição para comparecer aos locais de votação.

Se no ato de votar cada um de nós é obrigado a comprovar que votou nas eleições anteriores para poder acessar a urna, no comparecimento aos locais de votação, por sua vez, cada um de nós é obrigado a aceitar a obrigatoriedade de ir votar, isto é, deve estar ciente e consciente de que pode comprovar seu comparecimento às eleições anteriores.

O mal-estar tem início no momento em que cada um de nós sente ser necessário estar consciente dessa recorrente obrigatoriedade constrangedora.

Como foi dito acima, o mal-estar se faz sentir na experiência de cada um lá onde a subordinação do outro penetra na formação das mentalidades. Quer dizer, sempre que os amparos à afirmação do indivíduo, notadamente a psicologia, deixam de vigorar ou simplesmente mudam de função e, ao invés de suscitá-la, passam a reprimir a afirmação individual positiva e mais ou menos consciente da liberdade pode-se constatar o mal-estar – seja como decaimento ou falta de vitalidade, seja como inquietação moral.

Objetivamente, o mal-estar faz parte do processus em que, por um desenvolvimento posterior, os indivíduos se tornam socialmente constrangidos, e se encontram equiparados ao sistema dominante na ambiência em que tomam parte. É esse processus geral de subordinação que se observa no regime do voto obrigatório, em tal modo que o argumento oficialista da “obrigatoriedade / absenteísmo” vem a ter eco nos indivíduos, tornando-se um standard da mentalidade desse sistema, em detrimento da consciência da liberdade exercida na mencionada campanha das Diretas Já.

 

O indivíduo na sociedade

 

Neste ponto, podemos resumir o seguinte: (a) o suposto conflito da sociedade e do indivíduo é qualificado “suposto” para acentuar um problema mal colocado. Isto porque, uma vez bem colocado, o problema se dissolve.

Ou seja, tomados como não exteriores um ao outro, revela-se a impossibilidade em opor de maneira geral indivíduo e sociedade como antinomias; (b) em realidade, há unicamente casos de espécie, que se esclarecem pela aplicação dos procedimentos dialéticos por complementaridade, por implicação mútua, por reciprocidade de perspectiva (em diferentes graus); (c) o procedimento por polarização é o menos adequado para o esclarecimento dialético das situações conflitivas do indivíduo na sociedade. 

Mas não é tudo. Para chegar aos quadros propriamente sociológicos da psicologia coletiva, e além de contra-argumentar, a análise em realismo sociológico prossegue buscando a riqueza da psicologia coletiva contida naqueles dois termos, visando por essa via corrigir os erros prejudiciais à sociologia.

Há uma correspondência possível entre o indivíduo e a sociedade sob o aspecto da mentalidade individual e da mentalidade coletiva, reciprocidade de perspectiva essa que permanece frequentemente ignorada.

 

O psiquismo coletivo

 

►Afirmando em um fluxo a realidade da vida psíquica, surgem, por um lado, assinaladas como negativas, as separações metodológicas decorrentes do erro fundamental de interpretação que transpõe as tensões entre os níveis em profundidade da realidade social em antinomias, e opõe o individuo e a sociedade. 

A observação do fluxo da vida psíquica efetivamente experimentada (não apenas representada em imagens) mostra o seguinte:

(a) – não existem como elementos separados uma consciência individual, nem uma consciência de outro, nem uma consciência coletiva;

(b) – nesse fluxo da vida psíquica, existem acentuações do Meu (construídas metodologicamente como uma direção para a consciência individual), existem acentuações do Teu e da comunicação com o outro (construídas como a consciência do interpessoal) e existem acentuações do Nosso (construídas como uma direção para a consciência coletiva e caracterizando a mentalidade coletiva).

Além disso, para pôr em relevo o paralelismo entre o que se passa no indivíduo e o que se passa na realidade social é preciso considerar o seguinte:

 

As Consciências e os Quadros Sociais

 

(1) – a consciência individual, a consciência inter-pessoal e a consciência coletiva, sendo imanentes umas as outras em intensidade variável conforme as circunstâncias, conforme os quadros sociais e os seus tipos de estruturas e de conjunturas devem ser elas confrontadas ao mesmo nível em profundidade com os quadros sociais nos quais se incrustaram;

(2) – uma análise dessa confrontação metodológica no estudo das manifestações de sociabilidade põe em relevo o seguinte:

(2.1) – os três graus em profundidade dos Nós (Massa, Comunidade, Comunhão) tomados como quadros sociais e como as consciências coletivas correspondentes admitem como lhes sendo paralelos três graus em profundidade do Eu;

 (2.2) – às pressões que exercem na realidade social a massa sobre a comunidade e a comunidade sobre a comunhão corresponde uma pressão que o homem da massa exerce no foro íntimo sobre o homem da comunidade e uma pressão que o homem da comunidade exerce igualmente no foro íntimo sobre o homem da comunhão.

 

Sociabilidade e alienações

 

Tal o caso do paralelismo completo, simétrico, entre o que se passa no indivíduo e o que se passa na realidade social. Daí falar-se de uma correspondência possível entre o indivíduo e a sociedade sob o aspecto da mentalidade individual e da mentalidade coletiva, reciprocidade de perspectiva essa que permanece frequentemente ignorada.

Mas não é tudo. As variações constatadas no estudo da sociabilidade não devem ser reduzidas à dialética das alienações, cuja aplicação alcança o processus geral de subordinação em que os indivíduos se tornam socialmente constrangidos e se encontram equiparados ao sistema dominante na ambiência em que tomam parte.

O termo alienação mostra uma compreensão sociológica muito precisa.  Refere-se aos graus de cristalização, de estruturação e de organização da vida social que podem entrar em conflito com os elementos espontâneos desta, conflito que, acrescido pelo concurso de ideologias falazes, resulta na ameaça de dominação e sujeição que pesa sobre as coletividades e os indivíduos. É assim que Marx estuda a dialética das alienações na sua análise do regime capitalista, em vista da descoberta da realidade social e do reconhecimento do indivíduo concreto vivendo em sociedade.

No estudo da sociabilidade, por sua vez, trata-se de questão de fatos e exclusivamente de fatos, e o sociólogo admite que a constatação do paralelismo simétrico entre o que se passa no indivíduo e o que se passa na realidade social não anula a necessidade de perscrutar em pormenor as relações de fatos entre o coletivo e o individual.

Deve-se igualmente aplicar os procedimentos operativos dialéticos por complementaridade, implicação mútua, ambiguidade, polarização e reciprocidade de perspectiva ao estudo empírico dessas relações entre o coletivo e o individual.

 

O social e o individual

 

A aplicação desses procedimentos operativos pode levar a apreender todas as sinuosidades efetivas das interpenetrações e dos conflitos sempre relativos, mas sempre possíveis entre o social e o individual, entre o que se passa na realidade social e o que se passa no indivíduo (as condutas e modelos sociais e as individuais; os comportamentos estandardizados e a efervescência tanto coletiva quanto individual).  

Aliás, a respeito desse âmbito da psicologia interpessoal, o sociólogo já assinalou uma variação dos problemas que a aplicação dos procedimentos dialéticos operativos mencionados pode produzir.

Destaca-se em especial a variação dos problemas quando tais procedimentos aplicados às relações entre o social e o individual contemplam essas relações nos seguintes quadros: (a) – nos setores anestruturais ou nos setores estruturados dos fenômenos sociais totais; (b) – nas camadas espontâneas ou nas organizações; (c) – na escala microssociológica; (d) – na escala dos agrupamentos sociais particulares; (e) – na escala das sociedades globais (ver Gurvitch, op.cit.).

Quanto à variação dos problemas no âmbito da psicologia coletiva (relações entre a mentalidade individual e a mentalidade coletiva), nota-se que a reciprocidade de perspectiva pode ser aplicada com o máximo de aproveitamento quando, nas dinâmicas coletivas de avaliação, se passa aos atos mentais (intuições e juízos) ou às colorações voluntárias.

 

NOTAS DO SEGUNDO CAPÍTULO

 

[i] Gurvitch, G. (1894-1965) et al.: “Tratado de Sociologia - vol.1 e vol.2", op. Cit.

[ii] Ibid, ibidem

[iii] Sobre Juízos de Realidade e Juízos de Valor, adiante, pág.43.

[iv] A sociologia da literatura fornece amplo material sobre a problemática psicossociológica da tensão entre o estandarizado e o espontâneo no mundo da comunicação social ao século XX. Veja: Lumier, Jacob J: "A Utopia Negativa-2ª edição modificada", Madrid, Bubok, 2012, 148 págs. (tem versão e-book: < http://www.bubok.es/libros/210606/A-Utopia-Negativa2-edicao-modificada  >).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Notas críticas sobre a mentalidade resignada.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

(Em revisão)

 

Por

Jacob (J.) Lumier

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O problema é que a matéria das relações humanas nas organizações tem sido apreciado frequentemente na mais ampla desconsideração de qualquer referência ao mundo das ideias e valores, para, em lugar disso, deixar prevalecer o imaginário psicologista[i]. 

 

 Um standard do mundo da comunicação

 

A adoção da gestão de relações humanas foi afirmada em reação aos procedimentos de administração que associavam, exclusivamente, o melhor aproveitamento da capacidade física dos indivíduos, inclusive pela automação, ao aumento da produção. Trouxe um avanço na capacidade de compreensão das teorias de administração com a valorização de alguns aspectos do ambiente organizacional, como fatores característicos de relações humanas, que deveriam ser tomados em conta, seguinte: (a) o comportamento do indivíduo está condicionado às normas padrões sociais, e os indivíduos agem em vista de obter recompensas sociais; (c) a empresa deve  ser vista como um conjunto de grupos sociais informais, cuja estrutura nem sempre coincide com a organização formal; (d)  se reconhece a existência de grupos sociais que se mantêm em constante interação social dentro da empresa. (e) Da mesma forma, os elementos emocionais e mesmo irracionais passam a merecer maior atenção.

Trata-se de uma orientação com procedência no behaviorismo, o qual estabeleceu a noção de comportamento para designar as condutas observadas a partir de certos modelos de motivação e de êxito. Se preconizou, por essa razão, que as condutas dos indivíduos poderiam ser conduzidas pela ação administrativa.

Esta última, por sua vez, teria sua principal referência na busca do que chamam “sinergia”, uma união harmoniosa, em relação a que assinalam a importância do entrosamento que deve existir entre todos os níveis hierárquicos de uma organização: entre o presidente, diretores, gerentes, supervisores, assistentes e auxiliares. Todos sem exceção devem trabalhar em constante comunicação e harmonia, sempre coligados aos objetivos principais da companhia.

Em que pese o avanço na capacidade de compreensão das teorias de administração, as relações humanas são vistas de um ponto de vista dirigista, fortemente limitadas a uma psicologia atomista, em que os indivíduos são tomados em interações do tipo “ Eu – Tu”, sem que a mediação do todo seja tomada em consideração. Daí que um crítico perspicaz como Wright Mills, tenha descrito a psicologia social das instituições em termos que correspondem a um imaginário psicologista [ii].

Vê-se dessa forma um jogo individualista com caráter social atomista, assim definido exatamente por carecer de intermediação, por não reagir em função de seu conjunto, já que é um composto artificial de três imagens pessoais hipostasiadas, que recobrem a realidade social e exaurem o indivíduo, a saber: (1) a “pessoa” que alguém “pensa” ou se representa que é; (2) a que os outros “pensam” que ela é; (3) a que julga ou supõe que os outros “pensam” que ela seja [iii].

Nessa coleção de imagens hipostasiadas da pessoa, em que se atribui uma existência substancial ao que é ficcional, o aspecto interpessoal das relações sociais vem a ser restringido a uma atividade mental, a qual, nesse caso, é constatada em avaliações arbitradas nas preferências subjetivas, ou veleidades, projetadas como representações de outros, inclusive as auto avaliações, que, aquém das aspirações coletivas presentes de modo espontâneo na vida social, refletem apenas o caráter preestabelecido das regulamentações e das condutas previamente hierarquizadas no modelo dos aparelhos organizados [iv]. Daí a influência ampla dessa psicologia gerencial a que chamam “relações humanas nas empresas”.

Embora esse imaginário seja frequentemente supervalorizado nas técnicas utilizadas para treinamentos de funcionários, é também muito cultivado nos ambientes difundidos pela mídia e aplicado como modelo de relações humanas, as quais, dessa forma, passam a ser entendidas como gestão de pessoas que se propõe obter do grupo lealdade, dinamismo e comprometimento com os objetivos da organização. Acreditam que reconhecer as relações humanas é identificar a motivação das pessoas para poder conduzi-las com planejamento, informação, arbitragem, controle, recompensa, estímulos, disciplinas e todas as ferramentas e recursos utilizáveis em uma administração de recursos humanos.

O imaginário psicologista, pode também ser observado a partir do público da televisão e seus reality shows, onde, frequentemente, os personagens, inclusive das novelas líderes em audiência, sempre com suscetibilidade, sofrem uma ansiedade que pode ser descrita como interação mais ou menos lúdica das três pessoas hipostasiadas, as quais são como disse afirmadas sem um meio termo que as implique umas pelas outras, já que a noção de grupo nesse caso é meramente formal.

Na medida em que configura um standard do mundo da comunicação, o imaginário psicologista pode ser igualmente detectado na variedade de seriados “hollywoodianos” que fomentam o modelo de um ambiente organizado sob controles tecnológicos. Filmes em que, apesar dos desafios e eventuais peripécias, encontramos invariavelmente um pequeno grupo de personagens principais trocando avaliações uns dos outros, suas preferências e auto avaliações, à maneira dos antigos e influentes psicodramas e dinâmicas de grupo, que promovem a técnica de estimação dos ajuizamentos de valor portados por cada membro de um grupo sobre cada um dos outros, à margem do todo.

A referência do atomismo social

As teorias de relações humanas são formalistas e, como tais, refutadas, dado que tomam por base uma psicologia interpessoal atomista, e promovem a mencionada técnica de estimação dos ajuizamentos de valor portados por cada membro de um grupo sobre cada um dos outros (sociodrama ou psicodrama), e valorizam a imitação.

A realidade social não admite redução a uma poeira de indivíduos idênticos, mas, ao contrário disso, todas as interações, inter-relações, relações com outrem (interpessoais e intergrupais) ou interdependências pressupõem e são sempre fundadas sobre interpenetrações, integrações, participações diretas, fusões parciais em os Nós-outros (atuais ou virtuais), sempre concebidos como totalidades.

Psicodrama e sociodrama são esforços de autores que, embora tenham ultrapassado os erros de Hobbes, pensador este há muito superado, permaneceram parcialmente em desvantagem devido a um psicologismo individualista que os levou a reduzir a realidade social a relações de preferência e de repugnância interpessoais e intergrupais.

O erro de Hobbes não foi ter procurado os elementos microscópicos e irredutíveis de que é composta qualquer unidade coletiva, mas foi, sim, tê-los encontrado fora da realidade social, nos indivíduos isolados e idênticos.

Desse modo se estabeleceu a referência do atomismo social, como o conjunto das concepções individualistas e contractualistas que reduzem a realidade social a uma poeira de indivíduos idênticos [v]. Tal é a referência do psicologismo individualista que situa aos representantes do psicodrama no mesmo nível do formalismo social, com a equivocada redução de qualquer sociabilidade à simples interdependência e interação recíproca.

Nesta limitada orientação, se preconiza como disse que, ao nível psicológico da realidade social, qualquer interesse está concentrado sobre a psicologia interpessoal em detrimento da psicologia coletiva propriamente dita, com desprezo das funções intelectuais e voluntárias em favor do aspecto exclusivamente emotivo da preferência e da repugnância, com o aspecto mais significante da aspiração sendo aí deixado de lado.

 

Uma reflexão crítica à mentalidade resignada

Indiferente à realidade social que esconde de si, nesse imaginário psicologista, a consciência mantém-se mais ou menos fechada sobre si mesma, com tendência à introspecção, lança imagens ao exterior de onde as recebe, de tal sorte que essa perpétua interação de imagens de pessoas e autoimagens, trocadas entre indivíduos atomizados e a beira de alternativas excludentes – ou participar da dinâmica imaginária ou assumir o risco da exclusão –  gira como uma condenação, isto é, diretamente centrada na ansiedade da natureza humana, à margem das ali desprezadas aspirações coletivas.

Embora conformada ao que é preestabelecido na hierarquia organizacional, trata-se certamente de uma mentalidade vinculada à modernização dos procedimentos ou melhoramento dos controles técnicos e tecnológicos no mundo da produção, que se projeta para fora e se fixa nos símbolos padronizados do utilitarismo doutrinário – “o que é utilitário é bom para todos, logo, uma norma é legitima se favorece o que é utilitário”.

Nessa mentalidade tecnocrata, mas conformada, tem-se uma falsa compreensão das relações humanas efetivas nos diversos ambientes além do mundo da organização, tais como o mundo da família e vizinhança, o espaço público, os ambientes sociais e educativos, etc. Falsa compreensão porque, ao invés de percebidos como integrantes de um todo, no caso um Nós-outros, os outros, naquela mentalidade, são reduzidos como disse ao imaginário (psicologista) de cada um, desprovidos estes de integração funcional no todo, carentes de intermediação.

Daí, dessa atomização dos indivíduos, provém a pouca relevância atribuída às experiências efetivas que o grupo acumulou, deixando-se como negligenciáveis, juntamente com a sintaxe existente, o mencionado histórico (acervo) de suas práticas, de seus modelos e seus procedimentos anteriormente desenvolvidos em plano de uma organização.

 

Nem o sistema nem o mercado

Desta forma, em face da recorrência de concepções social-atomistas do tipo da referida “mentalidade resignada”, que tendem como disse para reduzir as relações humanas e sociais ao “imaginário psicologista”, devem compreender que o indivíduo e as relações humanas e sociais efetivas não são identificadas nem ao sistema nem ao mercado; não se reduzem à busca de vantagem diferencial que caracteriza o mercado, nem à hierarquia das desigualdades de posição econômica que alicerça o sistema.

 

 

Relações humanas, modernização e sociabilidade

 

Como se vê, do ponto de vista que predomina nessa matéria, chamada, na esteira do behaviorismo, “ciência do comportamento”, o que designam por "relações humanas" não passa de uma gestão, um modelo de gerenciamento da competitividade entre os indivíduos que se encontram submetidos ao domínio da vantagem diferencial, como categoria de estratificação social econômica, promovida pela hierarquia industrial financeira.

 

el hecho de que las personas tengan interés propio cuando participan en las relaciones sociales no significa busca del lucro, no significa que están allá para ganar más dinero. Ese interés expresa su aspiración al bien estar y puede ser el deseo de realizar obras, participar y ampliar sus conocimientos y experiencias.

Por un lado, como factor que torna jerárquicas las desigualdades, el control capitalista se basa en la recurrencia de la estandarización por vía de extensión de la mercaderización de las relaciones humanas, en cuanto que, por otro lado, y en la medida en que expresa el conjunto de las manifestaciones de sociabilidad, el pluralismo social efectivo se profundiza y torna más consecuente el contrapeso que limita la absorción de las aspiraciones en la categoría de ventaja.

Pueden suponer que la ideología neoliberal en su lema de que “no existe sociedad” (habrá solamente el mercado) incorpora una proyección de la supresión de la reciprocidad en el proceso de unilateralización a impulsar la generalización de las necesidades (que alimenta el mercado en escala global). Por contra, saben que esa ideología no resiste al cotejo de los hechos sociales. La sociedad vive en la consciencia colectiva (la auto-preservación no es solamente instinto individual, sino sentimiento colectivo) y existe en estado de realidad social. Sin embargo, el hecho de que las personas tengan interés propio cuando participan en las relaciones sociales no significa busca del lucro, no significa que están allá para ganar más dinero. Ese interés expresa su aspiración al bien estar y puede ser el deseo de realizar obras, participar y ampliar sus conocimientos y experiencias.

El sociólogo no limita el estudio de las relaciones sociales al punto de vista del control capitalista. Pero es preciso tener en cuenta que hay sí ambigüedad entre sociedad e individuo: ora es la perspectiva individual que hace prevalecer su libertad, ora es la sociedad que impone sus exigencias y engranajes.

Hay un pluralismo social efectivo. La sociedad es un macrocosmos de agrupamientos y formas de sociabilidad y cada agrupamiento tiene obras a realizar, como la moralidad, la educación, el conocimiento, el derecho, aunque el mismo sea un marco social con funciones económicas, basta recordar el ejercicio de la responsabilidad social en las empresas.

 

Os programas de melhoria organizacional.

 

Em relação à tecnificação dos controles hierárquicos, que atinge as relações humanas nas organizações, notam certos programas de melhoramento em que prevalece a tentativa para desmontar as sintaxes existentes e impor os esquemas previamente definidos.

 

 

O sociólogo põe em questão a primazia lógica na concepção e no modo de intervenção dos programas de melhoria ou melhoramento organizacional. Quer dizer, não é o conteúdo desses programas em seus propósitos de benfeitorias que suscitam análise sociológica, nem os Standards ou padrões organizacionais que os inspiram, a título de presumidas teorias administrativas.

Trata-se de algo mais amplo. Do ponto de vista sociológico diferencial, nos programas de melhoramento organizacional há um desejo voltado para remanejar e manipular o conhecimento já aplicado nas sintaxes em vigor social, já aplicado nas maneiras de agir e pensar em uso nas ambiências onde as práticas gerenciais se desenvolveram e foram assimiladas no histórico dos planejamentos (acervo de procedimentos).

Falam aqui de “desejo” e não “vontade” para sublinhar que tal desiderato manipulador não é necessariamente calculado ou proposital, mas decorre em parte do utilitarismo doutrinário, e em parte provém de uma exigência da própria automação com seu domínio lógico, que, ambos, compõem a mentalidade de modernização industrial e agroindustrial dominante nas hierarquias organizacionais.

Daí a relevância utilitarista das pesquisas ou levantamentos de informações como ferramentas para a tecnificação do saber, e para a consequente imposição de esquemas prévios, no molde dos formulários que intervêm sobre a compreensão das funções (atribuições, tarefas, hierarquias), e que exige do grupo ativo a submissão aos mapeamentos previamente definidos e muitas vezes estranhos aos vocabulários operativos em uso, contra o que se opõe o sociólogo.

Lembre-se que, no histórico da sociologia, tal orientação diferencial crítica em oposição ao utilitarismo doutrinário tem como disse ascendência em Émile Durkheim.

Com efeito. Caso não participasse das questões públicas e, em sua obra “Da Divisão do Trabalho Social” [vi] , não houvesse assumido oposição sociológica ao utilitarismo doutrinário, anteriormente promovido por Jeremy Bentham (1748-1832) e John Stuart Mill (1806-1873) que gozavam de excepcional prestígio nos meios progressistas da época, como se sabe, Durkheim não seria suscitado à descoberta original do quadro da sociologia da vida moral, a que chegou passando por uma reflexão aprofundada junto com a filosofia de Kant.

Como sabe, fora-lhe essencial sua recusa da "utilidade" como critério último das ações humanas e como base mensurável de análise das questões políticas, sociais e econômicas. Da mesma maneira, ao repelir toda a tentativa em estabelecer um absoluto para a vida moral com imposição aos fatos sociais, tornou-se igualmente indispensável repelir a pretensão utilitarista em reduzir o valor de uma norma unicamente a sua utilidade como critério de felicidade para o maior número. 

 

Pluralismo e Sociabilidade

 

O primeiro desafio para uma compreensão ampliada das relações humanas será ultrapassar a reificação estabelecida nesse termo como modelo de gestão de pessoas e recuperar a percepção do pluralismo social efetivo.

Todo o mundo sabe que os indivíduos mudam de atitude em função dos grupos aos quais pertencem. Os papéis sociais que assumem ou os personagens que encarnam mudam segundo os círculos sociais diferentes a que pertencem. Um pai ou um marido muito autoritário, por exemplo, pode, simultaneamente, desempenhar o papel de um colega particularmente atencioso. Em cada grupo, um indivíduo desempenha um papel social diferente: é ajustador, vendedor, professor..., por outro lado, esse mesmo indivíduo pode desempenhar, nesses grupos, papéis umas vezes sem brilho, outras vezes brilhantes; umas vezes subordinados, outras vezes dominantes; os mesmos indivíduos e os mesmos grupos podem, segundo estruturas e conjunturas sociais variadas, desempenhar papéis muito diferentes e até opostos. Por outro aspecto, existe a variabilidade: os agrupamentos particulares mudam de caráter e não apenas de posições; assumem identidades e diferenças não assumidas em tipos ou subtipos de sociedades diferentes. Na medida em que participam da mudança em eficácia que se opera no interior das estruturas, os grupos, mais do que se deslocarem conforme trajetórias apenas exteriores, se movem nos tempos sociais. Da mesma maneira, as manifestações da sociabilidade tanto quanto as classes sociais mudam de caráter em função das sociedades globais em que estão integrados; inversamente, as sociedades globais se modificam de cima a baixo sob a influência da mudança de hierarquia e de orientação das primeiras.

Desta forma, vê-se que, antes de sua conotação técnica gerencial, a sintaxe do termo “relações humanas” repousa na experiência da sociabilidade, que implica tanto o pluralismo social efetivo quanto a variabilidade. Bem entendido: a sociabilidade como realidade bem delimitada e precisa, cuja característica ressaltante consiste no fato de que existe uma fusão parcial entre as obrigações de uns e as prerrogativas de outros.

Trata-se, na sociabilidade, de um fato que se reconhece a posteriori como indispensável, detectado já no século XVIII por Montesquieu, ao pôr em relevo o sistema de freios e contrapesos, e, posteriormente, por Durkheim, de quem se aprende que a vida em sociedade seria impossível sem a mínima acomodação moral, reconhecida na aludida fusão parcial entre as obrigações de uns e as prerrogativas de outros, a qual é espontaneamente atualizada nas formas de sociabilidade como os Nós-outros – suas expressões na massa, na comunidade e na comunhão – e os Outrem (relações com os outros).

***

 

A referência das ideias e valores e a formação de um sentimento coletivo

 

Os Nós-outros formam um quadro microssocial privilegiado no domínio das significações, dos símbolos, das ideias e valores, dos atos mentais.

 

Caminhando no sentido da sociabilidade, cabe ao sociólogo examinar as significações práticas encaradas, vividas ou desejadas pelos sujeitos - quer tais significações impliquem comportamentos, gestos, modelos, papéis sociais ou atitudes coletivas - para solucionar a questão do que exatamente as exteriorizações ou manifestações coletivas recobrem. 

E só se chega a essa resolução mediante a interpretação das ideias e valores ali implicados, quer dizer, pela aplicação das correlações funcionais que caracterizam a existência do mundo das ideias e valores na realidade social.

De fato, é por via das correlações funcionais que se alcança o psiquismo coletivo, o plano dos atos (intuições e juízos) e estados mentais; o nível das dinâmicas espontâneas das avaliações coletivas, das opiniões, carências, satisfações, esforços, sofrimentos e ideais – cabendo notar que nessas dinâmicas entra em foco justamente o mundo das ideias e valores, inclusive a aspiração ao bem-estar ; o desejo individual e coletivo de realizar obras, participar e ampliar seus conhecimentos e experiências.

 

O mundo das ideias e valores ultrapassa os modelos de êxito

 

Posto que o sociólogo não representa ou projeta os valores, mas os descobre segundo critérios de efetividade, o mundo das ideias e valores é estudado em sociologia diferencial como a camada da realidade social que provoca a coincidência, por um lado, dos quadros de referências lógicas e dos quadros de referências estimativas, e, por outro lado, dos quadros sociais.

Uma consequência dessa efetividade do mundo das ideias e valores, está em que, por exemplo, a aceitação ou a rejeição dos modelos de verificação dos determinismos científicos, por parte de pensadores individuais e de elites técnicas, constitui uma das conjunturas nas quais fatores extra lógicos possivelmente sociológicos podem intervir e influir sobre a validade do pensamento de uma elite [vii]. As proposições dos problemas sofrem a influência dos “contextos sociais” através da mediação dos próprios conceitos operacionalizados nas formulações dos pensadores, os quais existem como significados socialmente condicionados.

Desse modo, o mundo dos valores viabiliza as correlações funcionais entre algumas ideias e valores e os tipos sociais, notadamente os tipos de estruturas sociais (p.ex. as correlações observadas nos tipos de sociedades que dão à luz o capitalismo nos séculos XVII e XVIII e explicam o iluminismo [viii]).

 

As relações humanas em sentido ampliado ultrapassam as suas esquematizações estabelecidas nos modelos de êxito, e cobram consequências nas condutas efervescentes, que, diferenciadas na formação de um sentimento coletivo, muitas vezes afloram em reuniões, assembleias, debates.

 

Um mundo de ideias e valores é descoberto por trás das condutas, das atitudes, dos modelos, dos papéis sociais, inclusive por trás dos símbolos sociais e suas esquematizações cristalizadas em nível dos aparelhos organizados, fato esse que torna indispensável tomar em consideração esse mundo de ideias e valores no estudo das relações humanas.

Tanto mais que essas relações humanas em sentido ampliado ultrapassam as suas esquematizações estabelecidas em modelos de êxito e distribuição de vantagens, e cobram consequências nas condutas efervescentes, que, diferenciadas na formação de um sentimento coletivo, muitas vezes afloram em reuniões, assembleias, debates, seja no âmbito das empresas e aparelhos organizados, seja em nível de agrupamentos de localidades ou demais agrupamentos funcionais.

No âmbito da formação de um sentimento coletivo, nota-se em sociologia que a consciência de classe, assim como as ideologias fazem parte da produção de imagens, da produção de símbolos, ideias, ou obras culturais em que as classes se reconhecem e por quem se recusam reciprocamente. A consciência de classe é uma determinação psíquica incluída na realidade das classes sociais, que engloba os traços gerais da classe considerada, enquanto o psiquismo de classe compreende as particularidades momentâneas locais, como a função de representação.

Em sentido amplo, não há criação de um simbolismo social novo sem a afirmação de ideias e valores que dão a motivação e, mais que isto, a inspiração para as condutas coletivas efervescentes, iluminando-as para que favoreçam a reestruturação; tornando-as forças luminosas e não “correntes cegas”, ao contrário dos que resistem à mudança pelo espontaneísmo social e coletivo.

O sociólogo nota que essas condutas efervescentes, com inspiração na afirmação de ideias e valores – inclusive a aspiração ao bem-estar ; o desejo individual e coletivo de realizar obras, participar e ampliar seus conhecimentos e experiências – quando afirmadas pelos Nós-outros das comunhões ativas ou ativistas - como o são as diversas seitas ou as formações dos partidários obstinados de diversas filiações (religiosos, culturais, políticos, espiritualistas, pacifistas, naturalistas, ecologistas, naturistas, preservacionistas, humanistas, filantrópicos, socialistas-utopistas, comunitaristas [ix], etc.) - manifestam a sua independência em relação aos símbolos, afastando-os, destruindo-os, substituindo-os por criações novas - notadamente em conjunturas ou situações de transição, em escala global ou no interior de grupos e de classes sociais, e isto geralmente sendo afirmado contra os aparelhos organizados.

 

Imitação e Sentimento Coletivo

 

Há quem sustente que o termo “relações humanas” não é reduzido a uma técnica gerencial de pessoas com caráter impositivo, projetada para salvaguardar os interesses de uma organização econômica. O termo teria sua referência em uma aplicação da psicologia interpessoal, cuja categoria central nesse caso seria a imitação, de tal sorte que as relações humanas poderiam ser induzidas por condutas preestabelecidas em regulamentos sem que isso implique um controle coercitivo.

Sem embargo, é preciso levar em conta que a psicologia interpessoal é parte do problema da formação de um sentimento coletivo.

Embora a imitação tenha procedência na consciência coletiva, predomina nesta última a oposição sociológica entre fusão ou interpenetração das consciências e a sua simples interação ou interdependência.

O fenômeno essencial da psicologia coletiva e que a insere no domínio da sociologia é a imanência recíproca e a dialética entre as consciências coletivas e as consciências individuais. A psicologia interpessoal, por sua vez, é como disse parte do problema da formação de um sentimento coletivo.

Portanto, seria ilegítimo designar por imitação a submissão aos modos e aos costumes, assim como a participação na efervescência coletiva. Ambos os casos tratam de manifestações da consciência coletiva.

Na efervescência dos grupos não há nem modelo nem cópia, mas fusão de certo número de estados psíquicos no seio de outro que deles se distingue, e que é o estado coletivo: em vez de imitação se deveria falar de criação, visto que desta fusão resulta algo novo – resulta um sentimento coletivo – sendo este processus o único pelo qual o grupo tem a capacidade de criar.

O fato de alguém se conformar com os modos e costumes, nada tem a ver com imitação, que, neste caso, é somente aparente: o ato reproduzido é tal, não por se ter verificado na nossa presença, ou com o nosso consentimento. Por exemplo, nossa adesão à regra se dá em virtude do respeito inspirado pelas práticas coletivas, e também por causa da pressão da coletividade sobre os Nós-outros, para evitar a dissidência. Ao contrário de imitação, conformar-se com os costumes é estar consciente da existência da consciência coletiva e inclinar-se perante ela.

 

A Imitação e as Relações com os outros

 

É falsa a pressuposição de que as consciências individuais perfeitamente isoladas podem entrar em contato independentemente de qualquer recurso à consciência coletiva. É igualmente falso que a reprodução imitativa pode não ser reduzida a fenômenos de reprodução automática ou “contágios” – aplicáveis aos animais como ao homem, e que se afirmam fora da vida social. Sem embargo, tal reprodução imitativa pode ser fundamentada em signos e símbolos [x].

A respeito dessa terceira pressuposição, podemos dizer que, ao se imitar, por exemplo, não o “espirro” ou o temor de outro, mas sim os seus gestos, as suas condutas conscientes, as suas opiniões, os seus atos refletidos, os seus juízos, etc. a imitação pressupõe a comunicação das consciências por meio de sinais e símbolos – e essa comunicação simbólica pressupõe por sua vez a fusão ou a interpenetração prévia das consciências, isto é: pressupõe uma consciência [coletiva] que dê aos signos simbólicos significações idênticas para os participantes.[xi]

►Mas não é tudo. Gurvitch sublinha que nenhum contato, nenhuma interdependência, nenhuma imitação distinta do simples “contágio” são possíveis entre as consciências individuais de outra forma que não seja no plano ou no horizonte da consciência coletiva. Durkheim se equivoca quando, por efeito de sua argumentação contra Gabriel Tarde, levando-o a reduzir a imitação à reprodução automática, chega à conclusão de que a psicologia interpessoal é inexistente e não passa de outro nome para a psicologia individual tradicional.

Por contra, na atualidade, já se reconhece dentro da sociologia uma psicologia interpessoal e intergrupal, em conexão com a psicologia coletiva. Nota-se que a existência dos Nós-outros, por um lado, dos vários Eu (diferenciados na reflexão sobre a experiência de cada um como personagens em seus círculos e papéis sociais) e de outrem, por outro lado, leva a reconhecer as relações mentais com os outros, isto é, as relações psíquicas entre o Eu, Tu, Ele, sublinhando que essas relações mentais pressupõem a realidade muito mais complexa e rica das próprias manifestações da sociabilidade, como os Nós-outros em seu conjunto em ato.

Desta forma, o estudo da imitação põe o problema da realidade do outro, o alter ego, assim como o problema da validade dos signos e símbolos, cuja solução conduz necessariamente ao estudo sociológico dos Nós-outros na vida dos grupos sociais, e ao estudo dos atos e estados mentais que são manifestações da consciência coletiva.

Notem que a imitação e o alter ego resultante são igualmente um aspecto ou direcionamento da mesma atividade mental, no caso as preferencias subjetivas. Em consequência, não há dualismo com o imaginário psicologista. Neste último, o aspecto interpessoal das relações sociais vem a ser limitado às séries de avaliações arbitradas nas preferências subjetivas ou veleidades projetadas sobre os outros, da mesma maneira que a imitação.

 

 

Quadro microssocial

 

►Representando um dos primeiros focos da dialética na realidade social os Nós-outros formam um quadro microssocial privilegiado no domínio das significações, dos símbolos, das ideias e valores, dos atos mentais. Dão foco às atitudes e estas, por sua vez, são conjuntos, configurações sociais (Gestalten) virtuais ou atuais que implicam dentre outros níveis um quadro social grupal ou global, em que os símbolos sociais se manifestam e escalas particulares de valores são aceites ou rejeitadas [xii].

 

Note-se que o diferencial da colocação do mundo dos valores em perspectiva sociológica é a constatação de que os Nós-outros são constituídos em quadros sociais e não se dissolvem em um gênero abstrato, em um conjunto sem ligação entre exemplares idênticos, o que aconteceria se existisse identidade entre os Eu participantes [xiii].

 

Daí a indispensabilidade do estudo sociológico dos Nós-outros [xiv].

 

►A microssociologia foi fundada e desenvolvida por Georges Gurvitch a partir da crítica imanente a Durkheim e aos seus "tipos de solidariedade" [xv].

Sendo entrelaçada em fato aos estados mentais, a "solidariedade" ou, em termos mais adequados, a sociabilidade constitui o complexo fundamental da consciência coletiva, portanto exprime o fato social indiscutível da interpenetração virtual ou atual das várias consciências coletivas ou individuais, sua fusão parcial verificada em uma psicologia coletiva dentro da sociologia.

 

Fusão Parcial das consciências

 

►Descrevendo desta forma a fusão como resultante, a microssociologia estuda a sociabilidade em dois tipos: (a) - a sociabilidade por fusão parcial nos Nós-outros, cujos graus são a Massa, a Comunidade, a Comunhão; (b) - a sociabilidade por oposição parcial entre “Eu, Tu, ele, aquele”, que são as formas de relações com outrem.

Um Nós-outros constitui um todo irredutível à pluralidade dos seus membros, mas imanente às suas partes – daí representar um dos primeiros focos da dialética na realidade social, cuja variabilidade é da competência do sociólogo pôr em relevo. 

Essa imanência recíproca varia p. ex. caso se trate de Nós-outros semiconscientes ou de Nós-outros conscientes, Nós-outros passivos ou Nós-outros ativos, Nós-outros em luta ou Nós-outros em paz.

A força de atração exercida pelos Nós-outros sobre os Eu que neles participam encontra-se em relação de proporcionalidade direta com a intensidade da fusão constituindo esses Nós-outros.

A força de pressão exercida pelos Nós-outros sobre os seus membros encontra-se, pelo contrário, em relação de proporcionalidade inversa com a intensidade da fusão.

Evidentemente, tratam-se forças psicossociológicas diferenciadas e não-equivalentes de tal sorte que as resultantes dessas variações na atração e na pressão têm qualidades diferentes e caracterizam as formas de sociabilidade concorrentes.

No caso das massas a pressão encontra-se no máximo – em consequência a fusão não atinge mais do que um grau muito fraco em intensidade e em profundidade.

No caso das comunhões a atração está no máximo e a pressão no mínimo – em consequência as fusões são mais intensas e mais profundas.

As variações não são limitadas às massas ou às comunhões. Caso consiga integrar uma porção maior ou menor do que existe de mais interno e de mais pessoal nos Eu e nos outros, um Nós-outros afirma-se como um foco de intimidade e calor, cujos graus, porém, podem descer muito baixo ao ponto de reduzi-lo ao estado de pura virtualidade e afrouxar a participação dos membros em passividade quase completa - a própria fusão pode ser inconsciente ou não se realizar além da superfície.

Gurvitch observa que se existisse identidade entre os Eu participantes em os Nós-outros, estes não poderiam como disse constituir-se em quadro social (o “todo concreto”) e tenderiam a dissolverem-se num gênero abstrato, num “conjunto sem ligação entre exemplares idênticos".

***

 

Os Eu participantes não idênticos [xvi]

 

►A interpenetração ou fusão parcial pressupõe ao mesmo tempo uma dessemelhança e uma semelhança (uma afinidade).  Essa afinidade torna-se mais forte na medida em que cresce a dessemelhança e que ao mesmo tempo se intensifica a participação no conjunto.   Portanto, as fusões parciais nos Nós-outros não podem atingir em imanência e em intensidade os graus que impulsionam no sentido da individualização ou no sentido da afinidade crescente dos Eu que nela participam. Tal a impossibilidade em afirmarem-se identidade entre os Eu participantes.

Na sociologia diferencial as ligações dos Nós-outros às intuições coletivas neles virtualmente implicadas afirmam-se em casos precisos e não em maneira geral, não se podendo ligá-los todos às intuições coletivas atuais - já que as semelhanças e as próprias dessemelhanças podem tomar as manifestações as mais variadas.

Quer dizer, é a imagem da interpenetração e da fusão parcial de várias consciências entreabertas (admitindo uma escala infinita de graus de abertura) que faz melhor sobressair o aspecto mental de um Nós-outros.

Os casos em que as intuições coletivas se tornam atuais exigem, além do mais alto grau em fusão e em atração (para os participantes), como nas comunhões, o seguinte:

(a) - que essas comunhões, no “estado de vigília, de efervescência e de excitação”, se apreendam e se reafirmem em si próprias (como, p.ex., no caso das comunhões situadas perante situações inesperadas, ou tomadas numa luta exacerbada com outras comunhões que ameaçam a sua existência);

(b) - que essas comunhões consigam apreender ideias e valores novos, ou criar obras coletivas inéditas.

No primeiro caso, Gurvitch nota que a atualidade das intuições coletivas pode ser verificada pelo fato de que as mesmas ultrapassam os signos e os símbolos (os quais contribuem para essa intensificação da fusão em um Nós-outros).

Entretanto, é admitida a raridade das intuições coletivas atuais.  Quer dizer, não se encontra com frequência os Nós-outros no estado efervescente e excitado apreendendo-se e confirmando-se como tais, ou conseguindo entrever ou criar novas ideias e valores e suscitar situações totalmente inéditas.

 

A afinidade de realidade social e esfera simbólica

 

Neste ponto, devemos retornar ao problema do simbolismo.

Em sua definição descritivo-compreensiva do pensamento simbólico como dotando o homem da nova capacidade para reajustar constantemente seu mundo humano, a análise filosófica [xvii] afirma o ponto de vista da mobilidade e da variabilidade levando-nos a relembrar que a variabilidade é pesquisada com prioridade em sociologia.

Quer dizer, os símbolos são estudados em sociologia como símbolos sociais, portanto, existindo como representações que só em parte exprimem os conteúdos significados, e servem de mediadores entre os conteúdos e os agentes coletivos e individuais que os formulam e para os quais se dirigem, tal mediação consistindo em favorecer a mútua participação dos agentes nos conteúdos e desses conteúdos nos agentes. Os símbolos sociais constituem tanto uma representação incompleta, uma expressão inadequada, quanto um instrumento de participação.

Segundo Georges Gurvitch [xviii], os símbolos sociais revelam velando e ao velarem revelam, na mesma maneira em que, impelindo para a participação direta no significado, travam-na.

Portanto, os símbolos constituem uma forma de comportamento diante dos obstáculos, sendo possível dizer que a função simbólica é inseparável do homem tomado coletiva ou individualmente, de tal sorte que os Eu, Nós-outros, grupos, classes sociais, sociedades globais são construtores inconscientes ou conscientes dos símbolos variados.

Na análise sociológica da esfera simbólica do mundo humano acentuam-se as seguintes constatações: (1) – a imensa variabilidade decorrente da ambiguidade fundamental do simbólico; (2) – os planos subjacentes da realidade social ela própria são dependentes do simbolismo na medida em que, justamente, simbolizam o todo indecomponível dessa realidade seccionada; (3) – ao mesmo tempo, os símbolos sociais mais especialmente ligados às obras de civilização [xix] funcionam como argamassa de colagem, juntando as descontinuidades entre os níveis seccionados; (4) – os símbolos se apoiam em experiências coletivas e atos criadores dos Nós-outros , grupos, sociedades, que (a) – constituem uniões prévias, as quais, por sua vez, tornando possível a comunicação, (a1) – ultrapassam a esfera simbólica tornando-a igualmente possível.

Nada obstante, cabe lembrar que em sociologia não se procede a reduções que não sejam procedimentos dialéticos. Constata-se que a esfera simbólica não passa de uma camada em profundidade da realidade social dentre outras.

A redução das ideias e valores e das obras de civilização ao plano do pensamento simbólico é característica da análise filosófica. Esta as destaca da realidade social e do empirismo efetivo, visando desse modo estudá-las mediante a acentuação de sua autonomia relativa como formas simbólicas dotadas de diferenças específicas.

Cabe, pois, à sociologia esclarecer que a mobilidade provém exatamente do caráter mediador dos símbolos impeli;ndo para a participação direta no significado [xx].

Desta forma, nos resultados da análise e descrição sociológica observa-se que os símbolos são muito mais indispensáveis aos Nós-outros que na realidade social servem de focos às intuições intelectuais.

Por sua vez, os Nós-outros que servem de focos às ações inovadoras e criadoras (intuições da vontade) são os menos dependentes de qualquer simbolismo.

Entretanto, posta a raridade das intuições coletivas atuais, já que como disse não se encontra com frequência os Nós-outros no estado efervescente e excitado apreendendo-se e confirmando-se como tais, ou conseguindo entrever ou criar novas ideias e valores e suscitar situações totalmente inéditas, compreende-se que a maior parte dos Nós-outros existentes na realidade social implica, portanto, unicamente intuições coletivas virtuais e não atuais.  Significando que:

¶Um grande número de Nós-outros permanece em estado inconsciente ou de sono e podem mesmo uma vez tornados conscientes persistir na sua passividade.

¶O elemento mental dos Nós-outros pode consistir na atualidade não dos atos (intuição e juízo), mas de estados; p.ex.: (a) os Nós-outros podem servir exclusivamente de quadros sociais à percepção ou representação coletivas, à memória coletiva, etc.; (b) eles podem afirmar-se como focos de sofrimentos e de satisfações, (c) focos de atração e de repulsão, (d) de tristeza ou de alegria coletivas; (e) focos enfim de veleidades e de esforços coletivos.

Em todos esses casos o papel desempenhado pela esfera simbólica no funcionamento dos Nós-outros permanece importante.

 

A Identificação heteropática

 

►Neste sentido compreende-se melhor a questão da identificação dos Eu participantes em um Nós-outros.

Certamente é indispensável distinguir nitidamente entre a sociabilidade por fusão parcial nos Nós-outros e os fenômenos patológicos de identificação heteropática e idiopática.

Gurvitch examina este problema a respeito dos argumentos de Durkheim em favor da coincidência total entre consciência coletiva e consciência individual pelo predomínio exclusivo da solidariedade mecânica [xxi].

Observa que o mesmo vale unicamente como um argumento que tem em vista a identificação heteropática – excluindo então a identificação idiopática, que seria o aniquilamento da consciência coletiva na consciência individual.

Sem embargo, a identificação heteropática com a consciência coletiva sendo admitida, repelida fica, todavia, que tal identificação possa servir de base para explicar a realidade específica da consciência coletiva. Isto porque tal identificação só é possível na medida em que a consciência coletiva já exista!

Estudado em psicologia infantil, no fenômeno da identificação em vez de duas ou mais consciências só uma resta; (a) na identificação heteropática se afirma a consciência com a qual nos identificamos; (b) na identificação idiopática se afirma a consciência do sujeito que identifica consigo próprio a Outrem ou a um Nós-outros [xxii].

Note-se que o fenômeno da identificação nada tem a ver nem com a identidade dos conteúdos nem com a identidade das próprias consciências, nem, finalmente com a ligação das consciências por uma participação recíproca [xxiii] .

►Apesar dessa distinção o sociólogo admite que em alguns agrupamentos e sociedades se manifestem casos intermediários, isto é, casos onde a separação entre o aspecto mental dos Nós-outros e os fenômenos de identificação é menos nitidamente acentuada que noutros casos.  Assim, nos são dados os exemplos seguintes:

Os Nós-outros constituídos por membros de seitas em êxtase místico, por iniciados nos mistérios antigos, por fiéis de um chefe político, por participantes em multidões exaltadas, podem um pouco aproximar-se dos fenômenos de identificação patológica, respectivamente, do homem com o seu Deus, com o seu Chefe, com o seu Herói, com o seu Pai, etc.

Nota-se que o psiquismo dos Nós-outros onde predominam estados emotivos está mais sujeito ao deslize para esses fenômenos de identificação do que a mentalidade dos Nós-outros onde predominam os estados intelectuais ou voluntários.  Bem entendido, os Nós-outros que servem de focos aos atos mentais estão mais preservados do que os Nós-outros que servem exclusivamente de quadros aos estados mentais.

 

A mediação comunicativa

 

Em acordo com a teoria sociológica de Georges Gurvitch compreende-se que todos os Nós-outros se encontram fundados em intuições coletivas no estado virtual (não traduzidas em juízos): “sem a presença das intuições coletivas virtuais, a existência dos Nós-outros seria impossível, como seria impossível a ação dos símbolos que facilitam o funcionamento dos Nós-outros e levam os seus membros à participação”.

Com efeito, a análise sociológica mostra que “a própria imanência dos Eu ao Nós-outros e dos Nós-outros ao Eu não pode efetuar-se se não for a partir de uma base intuitiva, mais não seja que virtual; é nisso precisamente que consiste em última análise a fusão parcial ou interpenetração”.

Ao mesmo tempo, quaisquer que sejam, todos os Nós-outros funcionam como precedendo qualquer mediação comunicativa por meio de sinais e símbolos, que poderia em seguida contribuir para sua conservação, sua consolidação e o seu reforço – o exemplo da língua impondo-se aqui.

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Notas

 

[i] O imaginário psicologista é reconhecido nas chamadas “discussões de relação” (DR), tidas por psicólogos como dificuldades para a autoajuda das pessoas.

[ii] Cf. Wright Mills, Charles e Gerth, Hans: Caráter e estrutura social: a psicologia das instituições sociais, tradução Zwinglio Dias, Rio de Janeiro, Editora Civilização Brasileira, 1973, 508 págs).

[iii] Ver Nota i.

[iv]  Ibid. ibidem.

[v] El atomismo en la filosofía social de Hobbes es subsidiario del contractualismo. El atomismo social dispensa tal ligación. La visión de la sociedad como constituida por individuos para la realización de fines que son primariamente fines individuales se aplica al atomismo social tanto cuanto al utilitarismo. De ahí se hablar que “no existe tal cosa como sociedad”. De ahí que esa proposición proyecte tanto el atomismo social cuanto el utilitarismo. Cf. Mark Redhead: Charles Taylor: Thinking and Living Deep Diversity, Rowman & Littlefield, 2002. Apud Lumier, Jacob (J.): “La Sociología, los Derechos Humanos y la Deconstrucción de las Desigualdades”, Madrid, Bubok Publishing, 2014.

[vi] Durkheim, Émile  [1858-1917 : De la division du travail social. (1893), Op. Cit.

[vii] Wright Mills, Charles (1916 – 1962): ‘Consecuencias Metodológicas de la Sociología del Conocimiento’, in Horowitz, I.L. (organizador): ‘Historia y Elementos de la Sociología del Conocimiento – tomo I ’, artigo extraído de Wright Mills, C.: ‘Power, Politcs and People’, New York, Oxford University Press, 1963; tradução Noemi Rosenblat, Buenos Aires, EUDEBA, 3ªedição, 1974, pp.143 a 156.

[viii] Ver Lumier, Jacob (J.): "O Sociólogo e a Sociologia", Ebook Issuu 43 págs. Novembro 2009, link: http://sociologia-jl.blogspot.com/2009/12/o-sociologo-e-sociologia-ebook-issuu.html

[ix] "Comunitaristas" é um termo que se refere aos praticantes do sentimento comunitário em oposição à conduta particularista.

[x] Aspecto este desenvolvido pelo notável psicólogo social americano G.H. Mead em sua obra “Mind, Self and Society”, de 1934.

[xi] Em sociologia, a consciência coletiva exprime o fato social indiscutível da interpenetração virtual ou atual das várias consciências coletivas ou individuais, sua fusão parcial verificada em uma psicologia coletiva.

[xii] Cf. Gurvitch, Georges (1894-1965): “A Vocação Actual da Sociologia - vol. I: na senda da sociologia diferencial”, tradução da 4ª edição francesa de 1968 por Orlando Daniel, Lisboa, Cosmos, 1979, 587 págs. (1ª edição em Francês: Paris, PUF, 1950), p.217.

[xiii] A sociologia dialética combate o preconceito filosófico que afirma um Eu genérico idêntico em todos, legado dos filósofos do século XVIII como Rousseau e Kant.  Cf. Gurvitch, Georges: “Los Marcos Sociales del Conocimiento”, trad. Mário Giacchino, Caracas, Monte Avila, 1969, 289 pp (1ª edição em Francês: Paris, PUF, 1966).

[xiv] Ver Lumier, Jacob (J.): "A Dialética Sociológica, o Relativismo Científico e o Ceticismo de Sartre", Ebook Issu 50 págs. Nov. 2009 link:

http://sociologia-jl.blogspot.com/2009/12/dialetica-sociologica-o-relativismo.html

[xv] Ver Lumier, Jacob (J.): "A Microssociologia na Formação Social", E-book Issu, ...

[xvi] Alguns dicionaristas reconhecem que em acepção substantiva e não pronominal, para designar a presença individual tomada pelo aspecto de sua consciência ou de sua subjetividade, o plural de Eu, além da forma Nós-outros, admite a forma "Eus" que, todavia, não adotamos.

[xvii] Cf. Cassirer, Ernst: “La Philosophie des Formes Simboliques (La Conscience Mythique)”, versão francesa por Jean Lacoste, Paris, Les Éditions du Minuit, 1972, 342 pp., (1ªedição em Alemão: 1925).

[xviii] Gurvitch, Georges et al.: “Tratado de Sociologia", volumes 1 e 2, revisão Alberto Ferreira, Porto, Iniciativas Editoriais, 1964 (vol.1), 1968 (vol.2). (1 as edições em Francês: Paris, PUF, 1957, 1960, respectivamente).

[xix] Os símbolos da linguagem, conhecimento, moralidade, arte, religião, direito, incluindo as idéias e valores que essas obras de civilização implicam (mediante redução ao plano do pensamento, a análise filosófica as estuda em sua autonomia relativa como formas simbólicas dotadas de diferenças específicas).

[xx] Ver Lumier, Jacob (J). “Cultura e consciência coletiva-2“, Web da OEI, Junho 2009, pdf 169 págs. link: http://www.oei.es/cienciayuniversidad/spip.php?article388

[xxi] Gurvitch, Georges (1894-1965): “A Vocação Actual da Sociologia" - vol. 1 e vol. 2, Lisboa, Cosmos, 1968 / 1979.

[xxii] Os papéis sociais podem ser reificados e tornarem-se alheios ao reconhecimento, de tal sorte que o setor da autoconsciência que foi objetivado num papel é então também apreendido como uma fatalidade inevitável, podendo o indivíduo estranhado negar qualquer responsabilidade no círculo das suas relações (no sentido da identificação idiopática afirmando a consciência do sujeito que identifica consigo próprio a Outrem ou a um Nós-outros). Quer dizer, “a reificação dos papéis estreita a distância subjetiva que o indivíduo pode estabelecer entre si e o papel que desempenha”. Cf. Berger, Peter e Luckmann, Thomas: “A Construção Social da Realidade: tratado de sociologia do conhecimento”, trad. Floriano Fernandes, Rio de Janeiro, editora Vozes, 1978, 4ª edição, 247 págs. (1ª edição em Inglês, New York, 1966).

[xxiii] Igualmente, a alternativa entre a identidade dos conteúdos das consciências e a identidade dessas mesmas consciências tampouco pudera servir para explicar a realidade específica da consciência coletiva, haja vista o seguinte: (a) – é evidente que a identidade de certos conteúdos e mesmo de todos os conteúdos das consciências individuais não as faz em modo algum fundirem-se em uma nova unidade; (b) – nenhum individualista jamais negou a presença de certos conteúdos idênticos nas consciências particulares, o que não impediu que elas fossem consideradas como isoladas umas em relação às outras.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Por Jacob (J.) Lumier

 

Epígrafe: Las fronteras entre el fisiológico, el psicológico y el social, desde el punto de vista de los nuevos conocimientos metodológicos no siglo XX, se tornaran esencialmente instables, y, con eso, tornaran acentuada la inmensa dificultad para definir lo que uno entiende por psíquico, además de acrecentar un tópico de alta relevancia para la argumentación en favor del concepto de fenómenos psíquicos totales.

 

Sumário

La sociología de la vida psíquica delante del problema de la comunicación social: Una Introducción.. 1

Presentación.. 1

Observaciones Preliminares (de Dilthey hasta Gurvitch). 1

Psicología versus sociología: una referencia en la formación de la sociología. 1

La aprehensión de las totalidades.. 1

El Hombre Total 1

Individuo y sociedad.. 1

Psicología versus sociología: un cuadro sociológico de la sociología   1

PRIMERA PARTE.. 1

La falsa alternativa psicología y sociología.. 1

La trayectoria de la cuestión.. 1

Gabriel Tarde, Durkheim y la Mentalidad Colectiva.. 1

El obstáculo de la introspección y el Behaviorismo.. 1

El círculo vicioso de Freud.. 1

Jean Paul Sartre y Lucien Goldmann

Colaboración entre la psicología y la sociología.. 1

La penetración del social en el psicopatológico.. 1

La no-competición entre psicología y sociología. 1

La interdependencia de la psicología individual, de la interpersonal y de la colectiva  1

Superar la introspección.. 1

Combinación de los tres métodos.. 1

Notas Críticas Sobre las Teorías de Interacción.. 1

Imitación y Sentimiento Colectivo.. 1

Notas.. 1

 
Presentación

 

La publicación del presente artículo tiene en cuenta el proyecto de promover las lecciones complementares a la sociología del conocimiento. En esa última, la psicología colectiva y la comunicación social tienen alta relevancia, pero el estudio de los problemas específicos del psiquismo permanece poco tratado, no tiene lugar.

El propósito de ese trabajo es rellenar tal lugar disponible. Su primera versión en lengua portuguesa está publicada en "Psicologia e Sociologia: O Sociólogo como Profissional das Ciências Humanas", Internet, E-book Monográfico, 158 págs. Janeiro 2008 Web da Organización de Estados Iberoamericanos para la Educación, la Ciencia y la Cultura - OEI,

link < http://www.oei.es/noticias/spip.php?article2005  >

 

 

Observaciones Preliminares (de Dilthey hasta Gurvitch)
 
 
Psicología versus sociología: una referencia en la formación de la sociología

 

La falsa alternativa psicología versus sociología, constituí un cuadro sociológico de la sociología, y revela una referencia intelectual de análisis e interpretación diferenciada, en modo especial, en la formación de la sociología como disciplina científica.

Trata-se de demonstrar no solo el carácter anacrónico de esa falsa alternativa y la necesidad de los sociólogos se desembarazaren de la misma. Presenta-se, pues, una orientación renovada y dialéctica para tornar a poner el problema de las relaciones actuales entre la psicología y la sociología en termos de colaboración

El camino más significativo para esa aproximación de las dos disciplinas parientes, ha sido  desarrollado por Gurvitch, al construir y establecer el concepto sociológico de Fenómenos Psíquicos Totales, en complementación dialéctica del concepto de Fenómenos Sociales Totales, descubierto ese último por Marcel Mauss [1872 – 1950] [ii] y presentido por Emile Durkheim [1858 – 1917].

La aprehensión de las totalidades

Sin embargo, la proposición de Gurvitch tiene todavía dos motivos provenientes del análisis filosófico, siguientes:

(a) – atender a la recomendación formulada por Wilhelm Dilthey [1833 – 1911] [iii] para que se pusiese en obra una psicología verdaderamente descriptiva en el ámbito del análisis de los hechos culturales, cuyo carácter intuitivo hizo sobresalir [iv];

(b) – llevar en cuenta, o mejor, buscar un desdoblamiento analítico y operativo para la constatación señalada igualmente por Dilthey de que, en su decir, “a las relaciones permanentes de los actos psíquicos de un ser humano con los de otro están conjugados sentimientos permanentes de co-pertenecemento” (y no solamente una fría representación de esas relaciones, como ocurre en las teorías formalistas de interacción [ver tópico abajo])[v].

Note que la importancia de las analices filosóficas de Dilthey para la sociología ha sido bien reconocida. Así que la fundamentación de los tipos sociológicos se ha beneficiado del conocimiento de que las totalidades humanas han de ser aprehendidas por intuición, y no solo dependientes de la interpretación abstracta del sentido interno de las conductas, como ha deseado Max Weber [vi].

“A las relaciones permanentes de los actos psíquicos de un ser humano con los de otro están conjugados sentimientos permanentes de co-pertenecemento” (y no solamente una fría representación de esas relaciones) [Dilthey].

Para el sociólogo, la aprehensión de las totalidades de que Dilthey habló antes de Mauss es suficiente para llegar a los tipos sociológicos, ya que implica la aprehensión de significaciones inseridas por veces en esas totalidades y tomando parte de ellas.

No deben disminuir la importancia de ese análisis de Dilthey, que establece la noción de comprensión. Por el contrario, hay que hacer sobresalir el alcance de esas significaciones aprendidas y como tales ofreciéndose a la interpretación de los tipos sociológicos, especialmente en el ámbito de los problemas de las civilizaciones, estudiados en los respectivos ramos de la sociología (sociología del conocimiento, del derecho, del arte, de la religión, de la moral, de la educación).

El Hombre Total en el doble protesto metodológico

Sin embargo, es para la afirmación de la alta relevancia metodológica de la aprehensión de las totalidades que deben enfocar nuestra atención. Hay que mencionar la noción de “hombre total”, notada primero en Marx y mutatis mutandis en Mauss [vii], como la primera pista de la necesidad de un concepto tal como el de los fenómenos psíquicos totales en sociología, pensados en estrecha ligación con los fenómenos sociales totales. Tanto es así que, en el rastro de Marx, la utilización de esa noción del hombre total en sociología diferencial atiende al siguiente doble protesto metodológico marcante en el siglo XX:

Primero – la recusa de la construcción abstracta y arbitraria del hombre económico o del hombre político, o del sujeto individual del derecho, o aún del hombre que juega (lúdico), del que conoce (sujeto cognoscente), o del hombre agente moral, afirmando-se, entonces, contra esas construcciones abstractas y arbitrarias, la presencia efectiva del hombre que existe en la realidad, como siendo todo eso y más todavía;

Segundo: la recusa de la identificación del hombre a su vida mental, en que es olvidado el hecho de que el hombre es igualmente un cuerpo, un organismo fisiológico y un participante en las sociedades, en las clases sociales, en los agrupamientos sociales particulares, en los Nosotros, en fin, en los propios fenómenos sociales totales.

De esta suerte, las fronteras entre el fisiológico, el psicológico y el social, desde el punto de vista de los nuevos conocimientos metodológicos en el siglo XX, tornaran-se esencialmente instables, y, con eso, tornaran acentuada la inmensa dificultad para definir lo que uno entiende por psíquico, además de acrecentar un tópico de alta relevancia para la argumentación en favor del concepto de fenómenos psíquicos totales [viii].

Individuo y sociedad

Hay más. En la exposición que se seguirá, veremos que la elaboración del concepto de fenómenos psíquicos totales presupone ciertos cuadros propiamente sociológicos, afirmados en sus referencias al siguiente: (1) al supuesto conflicto entre el individuo y la sociedad, por un lado, y por otro lado, (2) a la falsa alternativa psicología o sociología, no solamente como disciplinas científicas (la psicología o la sociología), sino como objetos reales.[ix].

Recuerda, con efecto, que el supuesto conflicto entre individuo y sociedad releva de ejercicios retóricos practicados mucho antes del aparecimiento de la sociología, a los cuales se ligan las querellas entre las teses individualistas y colectivistas, o entre las posiciones contractualistas e institucionalistas.

No solo la sociología del siglo XIX resignó a envolver-se en esas discusiones inocuas, en que se trataba del individuo o de la persona humana, por un lado, y por otro lado, de la sociedad o de la colectividad, como se fueran entidades abstractas ya completamente acabadas e irreducibles, enfrontando-se en inexorable y eterno conflicto.

Esas querellas proseguirían después del nacimiento de la sociología hasta el inicio del siglo XX. Será, pues, a partir de dos vertientes interpretativas que se nos presentará los fundamentos del análisis actual, como aplicado en aquella elaboración del concepto sociológico de fenómenos psíquicos totales, a saber: (a) la apreciación de esas controversias vacías oponiendo el individuo y la sociedad; y (b) la crítica a los errores principales que se trata de eliminar para evitar su interferencia perjudicial en la sociología.

Psicología versus sociología: un cuadro sociológico de la sociología

La falsa alternativa psicología versus sociología, constituí un cuadro sociológico de la sociología, revela como he dicho una referencia intelectual de análisis e interpretación diferenciada en modo especial en la formación de la sociología como disciplina científica. La orientación renovada para tornar a poner el problema de las relaciones dialécticas actuales entre la psicología y la sociología, además de demonstrar no solo el carácter anacrónico de esa falsa alternativa y la necesidad de los sociólogos se desembarazaren de la misma, debe ser hecha mediante el desarrollo de los siguientes tópicos:

Primero: una apreciación de las posiciones de los sociólogos hasta los primeros años del siglo XX, en especial una crítica de la querella que ha opuesto Gabriel Tarde e Durkheim;

Segundo: un análisis de las tendencias de la psicología moderna, en especial una apreciación de la adaptación del psicoanálisis a la sociología, como revelando cierta persistencia del enfoque competitivo o de alternativa psicología / sociología.

 

 

PRIMERA PARTE

 

La falsa alternativa psicología y sociología

 

Durkheim niega con razón la posibilidad de reducir al mental y al psíquico toda la realidad social, tenida en cuenta la afirmación en esta última de la base material de la sociedad, la morfología, juntamente con la afirmación de las organizaciones y de las instituciones con sus modelos, símbolos, valores colectivos más o menos cristalizados y encarnados.

La trayectoria de la cuestión

 

El sociólogo pone en cuestión el obstáculo de la introspección y la falta de éxito en superarlo por el behaviorismo y por el psicoanálisis.

 

En respecto a la argumentación que busca llegar a una orientación para tornar a poner el problema de las relaciones actuales entre psicología y sociología, mediante la aplicación de los procedimientos operativos dialécticos, tres pontos deben ser sucesivamente destacados:

(a) la psicología individual, la psicología interpersonal y la psicología colectiva se verifican interdependientes;

(b) – la imposibilidad en establecer una alternativa entre psicología individual y psicología colectiva salta a los ojos delante del problema de la comunicación. El análisis sociológico es el siguiente: considerando que en el psiquismo colectivo tiene lugar una fusión previa de las consciencias (asegurando la misma significación a los signos y a los símbolos, como, p.ex., a las palabras de una lengua), notase que el psiquismo interpersonal o intergrupal implica los dos otros, pues, se ese psiquismo interpersonal es afirmado en sus manifestaciones en la comunicación, ninguna comunicación puede tener lugar fuera del psiquismo colectivo. Al mismo tiempo, son los psiquismos individuales que comunican – lo que supone su diferenciación tanto cuanto su fusion.

(c) los métodos de la psicología moderna deben ser combinados y aplicados a los fenómenos psíquicos totales para que la misma venga a obtener resultados positivos.

La cuestión de saber se es válido o no reducir la psicología a la sociología o la sociología a la psicología retornó clásica y puede ser observada en los debates de los sociólogos (por veces también entre los psicólogos) desde la constitución de la sociología, llegando a alcanzar el siglo XX.

Alias, la trayectoria de esa cuestión por si, ya sugiere la comprensión de la psicología colectiva como ramo de la sociología.

Con efecto, uno de los fundadores de la sociología en el siglo XIX, que no concedió a la psicología lugar alguno en su clasificación de las ciencias, August Comte, no solamente admitía la existencia del psiquismo, sino que acreditaba a la sociología la capacidad para solucionar cualquier problema decurrente de las manifestaciones de lo psíquico.  Herbert Spencer y Stuart Mill, que reconocieron la psicología, no hubieran delimitado con la debida precisión las relaciones de la misma con la sociología.

En Karl Marx, la cuestión permanece en abierto, aunque el concepto de conciencia real, simultáneamente colectiva e individual, tomada como lo opuesto de la ideología – siendo esta un producto de la conciencia mistificada –, juntamente con el estudio de la toma de conciencia como elemento constitutivo de una clase social, delinea para Marx el objeto de una disciplina especial – la psicología colectiva – que, por lo demás, Henri Lefebvre designó Psicología de las Clases Sociales [x].

Gabriel Tarde, Durkheim y la Mentalidad Colectiva

En Gabriel Tarde, por su vez, la sociología puede ser reducida a la psicología simultáneamente individual e interindividual, o sea  a la psicología intermental. Por el contrario, Durkheim niega la posibilidad en reducir al mental y al psíquico toda la realidad social, tenida en cuenta la afirmación en esta última de la base material de la sociedad, la morfología, juntamente con la afirmación de las organizaciones y de las instituciones con sus modelos, símbolos, valores colectivos más o menos cristalizados y encarnados.

Además, al contrario del posicionamiento de Tarde, para Durkheim es solamente como parte integrante de la realidad social que la vida mental o psíquica puede interesar a la sociología, es decir, como mentalidad colectiva. Entendía él la psicología colectiva como ramo de la sociología y preconizaba la fusión en la sociología de la psicología individual o intermental – distinguida de la psicopatología y de la psicología fisiológica.

El obstáculo de la introspección y el Behaviorismo

 

Aplicado a la sociología, el behaviorismo pone en relieve el disparate a que uno llega al excluir el alcance prioritario de los símbolos sociales para la comprensión de los comportamientos.

 

Cuanto al análisis de las tendencias más recientes de la psicología moderna, hay que poner en cuestión el obstáculo de la introspección y la falta de éxito en lo sobrepujar por el behaviorismo y por el psicoanálisis. Aliás, tomar la introspección como obstáculo es la actitud propia de la sociología, siendo esa actitud afirmada en el origen de la desclasificación de la psicología por Comte y por Durkheim.

De esa forma, cabe señalar el fracaso de los sociólogos que, sea adoptando el behaviorismo, sea adoptando el psicoanalisis, sea los dos combinados, tentaran dotar la sociología con una nueva metodología.

De acuerdo con Gurvitch, esa tentativa controvertida de renovación vino a se traducir en un retorno a las posiciones prójimas de Gabriel Tarde: la sociología behaviorista o la psicoanalítica no obtuvieran éxito en desligar-se de la psicología individual. Es el caso de autores como Pavlov y Watson, que desarrollaran el behaviorismo; y los sociólogos Floyd Allport, Read Bain, Georges Lundberg y otros, que lo aplicaran a la sociología. Además, la introducción de la noción de excitantes sociales y de reacciones fundadas sobre la reflexión no alteró el hecho de que el behaviorismo permaneció una teoría psicofisiológica orientada exclusivamente para el individuo.

Gurvitch nos ofrece un ejemplo cabal de la insuficiencia fundamental del behaviorismo aplicado a la sociología poniendo en relieve lo disparate a que se llega al excluir el alcance prioritario de los símbolos sociales para la comprensión de los comportamientos.

Se opone vigorosa e irónicamente nuestro autor a la tese de los juristas behavioristas norte-americanos según los cuales el derecho nada más es de que el comportamiento del juez en un tribunal. Toma como ejemplo el hecho de que el individuo humano tiene manifestaciones comportamentales de orden fisiológica (estornuda, etc.) y que, si las incluyera en consecuencia, el comportamiento del juez no produciría en modo alguno el derecho. Para que ese efecto de producir derecho sea verificado es preciso que la conducta del juez sea penetrada por cierto conjunto de símbolos sociales. El comportamiento simbólico del juez depende mucho más de las significaciones sociales jurídicas y no de una creación personal. Tal es el límite de la extrita concepción behaviorista [xi].

El círculo vicioso de Freud

El círculo vicioso de la mentalidad individual exclusiva limitando la psicología social buscada por Freud prende-se al origen nítidamente fisiológica observada en la psicopatología del deseo sexual.

Cuanto al análisis crítica del psicoanálisis, podemos notar que el círculo vicioso de la mentalidad individual exclusiva, como limitando la psicología social tentada por el propio Freud, prende-se al origen nítidamente fisiológica observada en la psicopatología del deseo sexual, de la cual tuvo su punto de partida el pensamiento del fundador del psicoanálisis.

La psicología social en base psicoanalítica es limitada y se circunscribe a los estados psíquicos individuales. Las relaciones sociales que afectan eses estados individuales han sido concebidas por Freud bajo la forma de proyecciones subjetivas del “Id" y del “Superego”.

Ese pensador procura siempre explicar la vida social por la libido, por los recalques y los complejos, así como por los conflictos entre los deseos individuales y los comportamientos sociales, tomándolos como dominados por los modelos culturales estandarizados. 

 Jean Paul Sartre y Lucien Goldmann

Ciertamente, esa representación de que los comportamientos sociales se encuentran dominados por los modelos culturales estandarizados se reveló muy envolvente en el siglo veinte, y dio lugar a la crítica de la reificación. Algunos pensadores y sociólogos notables no freudianos se dejaran seducir por ella, como Jean Paul Sartre y Lucien Goldmann.

Ese último autor, en su libro sobre la sociología del romance, acreditó tener descubierto una homología estructural directa entre las estructuras del mercado capitalista y las del romance como forma literaria, sin pasar por la mediación de una conciencia colectiva.  

Con eso, dio guarida a la pretensión improbable de que la comunicación social pudiera acontecer en el exterior de la conciencia colectiva. Dejó de lado justamente que la psicología individual, la psicología interpersonal y a la psicología colectiva se revelan interdependientes delante del problema de la comunicación [xii]. 

Sin embargo, hay quien señale en el análisis desarrollado por Goldmann el descubrimiento de un “sujeto transindividual” (no necesariamente una clase), supuesto en la medida en que el romance expresa los sentimientos de una capa social (la “intelligentzia”) que incluye los creadores, escritores, artistas, filósofos, teólogos cuyos pensamiento y comportamiento, aunque no lleguen a escapar enteramente al poder degradante del mercado y de la reificación, permanecen influenciados por valores cualitativos (no económicos).  

Goldmann sostendría la convicción de que las acciones históricas, el dominio de la naturaleza, la creación cultural, no pueden ser entendidos en su significación, ni explicados en su origen sino partiendo de un “sujeto transindividual”, el cual, comprendiendo la relación del hombre con los otros hombres y el hecho de que el Yo  individual solo existe por detrás de la comunidad,  estaría a designar los grupos humanos, las colectividades en las cuales los seres humanos piensan y actúan juntos (cf. Goldmann, L: Sciences Humaines et Philosophie, pág. 128).

La contradicción es que, aún se refiriendo a grupos humanos, ese autor repele la noción de conciencia colectiva, de tal suerte que su concepción de sujeto transindividual, en la mejor de las hipótesis, no puede significar otra cosa que una capa social: una colección de individuos siguiendo el mismo modelo.

De esa forma, la crítica propuesta por Gurvitch a Sartre se revela aplicable a Goldmann, a saber: de que su concepción del colectivo (no caso, el transindividual) es una serie, y que no tiene serventía la reunión bajo ese termo, como lo hace Sartre, de tres o cuatro manifestaciones diferentes de la vida social (relaciones de alejamiento; Masas; solidaridad mecánica no sentido durkheimiano; en fin, colección dispersa de individuos siguiendo el mismo modelo).

De hecho, hay que manifestar insatisfacción cuando Sartre afirma que las “series sirven de fundamento a toda la sociabilidad”.  Sartre llega fácilmente a la conclusión más inquietante aún de que “la totalidad es aquí totalización práctico-inerte de la serie de las negaciones concretas de toda la totalidad” (cf. Gurvitch: Dialectique et Sociologie).

En fin, cuanto a la suposición de Goldmann de que los creadores, escritores, artistas, filósofos, forman una conciencia especial y deben ser considerados desgarrados en relación a las clases sociales, noten las pertinentes observaciones contrarias de Lefebvre (Cf "Psicología das  Classes Sociales", in Gurvitch e al.: ‘Tratado de Sociologia - vol. 2’). Ese notable sociólogo observa apropiadamente que la “intelligentzia”, como un cuerpo de elementos con actividades especializadas, que agrupa escritores, filósofos, periodistas, editores, directores de publicación, etc. tienen la función social de viabilizar la comunicación eficaz entre los agrupamientos sociales particulares y las clases, implicando una tendencia para los desacuerdos entre las ideologías y los psiquismos de clase, más do que un acuerdo permanente. Aún según Lefebvre, la suposición de una coincidencia entre el psiquismo de clase y la conciencia de clase solamente tendrá sentido en una teoría que atribuye privilegio para una conciencia de clase especial, como en la obra del joven Lukács con su visión majestosa.    

Retornando a la psicología social en base psicoanalítica, el límite de la mentalidad individual exclusiva vino a ser superado por algunos discípulos de Freud – como Eric Fromm, Horney y Kardiner – que, en su tentativa de combinar las ideas del psicoanálisis unas veces con Marx, otras veces con la teoría de los papeles sociales [xiii] tornaran establecidos lazos funcionales indisolubles entre la persona humana y la realidad social, bien como entre la mentalidad individual y la mentalidad colectiva.

Sin embargo, esa adaptación del psicoanálisis a la sociología no ha significado la distancia completa en relación al debate sobre la relación entre psicología y sociología, aún que ningún considera hoy tal cuestión bajo la forma de alternativa.

Gurvitch nota que un bueno ejemplo de tal insuficiencia es Kardiner, que, en sus escritos,: (a) – hace recuerdar as concepciones de Gustave Le Bon, Pareto e Sorel, (b) – desconoció la sociología y la psicología colectiva desarrollada por Durkheim y sus colaboradores, interesando en modo especial la psicología colectiva da inteligencia (estudio de las representaciones colectivas, memoria colectiva, categorías y clasificaciones lógicas), (c) – desconoció la psicología desarrollada pelo norte-americano G.H. Mead (George Herbert Mead, 1863 – 1931), igualmente orientada para la psicología colectiva de la inteligencia, (d) – tuve recaídas en posiciones simplistas al afirmar que solamente la psicología de la vida afectiva y emocional es la única que está directamente en relación con la sociología.

Colaboración entre la psicología y la sociología

Retornando al intento de Gurvitch para formular en termos de colaboración las relaciones actuales entre la psicología y la sociología, hay que notar la comprensión ofrecida por Marcel Mauss en su discurso sobre As Relações Reais e Práticas da Psicología e da Sociologia [xiv].

El valor ejemplar de ese texto consiste en el siguiente: (a) – tener proclamado el fin de la competición entre la psicología y la sociología, mostrando que las dos disciplinas caminan para buscar una a la otra sus conceptos y su terminología, incluido las nociones de expectativa, símbolo, mentalidad, actitud, papel social, acción, etc.; (b) – tener proclamado igualmente el fin de la oposición entre la psicología colectiva y la psicología individual [xv].

 

La penetración del social en el psicopatológico

 

 

La penetración del social en el psicopatológico es un hecho consecuente no solamente para la psicología patológica, sino que igualmente para la psicología fisiológica.

Con efecto, contra esa oposición, afirma-se la idea de que el social penetra en el psicopatológico y que esa penetración del social es un hecho consecuente no solamente para la psicología patológica, pero igualmente para la psicología fisiológica. Gurvitch hace recordar el parecer de los psiquiatras según el cual las neurosis tienen su origen no solamente en una integración insuficiente en la vida social, sino que, en modo especial, las neurosis ocurren allá donde se constata la desadaptación entre los papeles sociales representados y las capacidades efectivas de los pacientes.

Además de eso, para reforzar el fin de la competición entre psicología y sociología nota-se una línea de pesquisa dirigida al estudio de la medida por la cual el social actúa sobre el fisiológico, siguiente: (a) – desarrollada por Marcel Mauss en su estudio sobre “As Técnicas do Corpo” [xvi]; (b) – señalada en las observaciones de Robert Hertz (1881 – 1915) sobre el origen social de la preeminencia de la mano derecha; (c) – reconocida por las definiciones de Charles Blondel (1876 - 1939) según las cuales (c1) – o psíquico se encuentra situado entre el cuerpo y la sociedad, (c2) – la conciencia mórbida de los enfermos mentales representa la disociación social del psíquico y del consciente [xvii].

La no-competición entre psicología y sociología

Nota-se igualmente la no-competición entre psicología y sociología en las observaciones de los sociólogos sobre el alcance de las interdicciones religiosas que permanecen profundamente enraizadas en la mentalidad psicopatológica. Así, por ejemplo, en relación a los pacientes bajo el dominio de eses interdictos, es atribuido a la eficacia social de las religiones que los mismos sean impedidos de cometer el suicidio si esto es prohibido en su religión.

La colaboración entre psicología y sociología sugiere la figura geométrica de dos círculos secantes que se recubren en parte.

Sin embargo, de la misma manera en que señalamos los aspectos que las aproximan, hay igualmente los aspectos que apartan la sociología de la psicología y que respectan al substrato material de la sociedad.

Las organizaciones, las estructuras sociales parciales y globales, las prácticas, los modelos, las obras de civilización – incluido el conocimiento, la religión, el derecho, el arte, la educación como contenidos aprendidos en las reglamentaciones o controles sociales – no se pueden reducir  ni al psíquico individual, ni al psíquico colectivo, aún que en la realidad social sean como lo vimos marcados por esos psiquismos en variados grados de intensidad.

De esa forma, Gurvitch nos ofrece una precisión de la colaboración entre psicología y sociología sugiriendo la figura geométrica de dos círculos secantes que se recubren en parte.

Una vez que existen los niveles de realidad social que no se dejan reducir ni al psíquico individual ni al psíquico colectivo, como acabamos de verlo, Gurvitch chama atención para el truco metodológico de uno no tener en cuenta la existencia efectiva de eses diferentes niveles de realidad, advirtiendo contra el error de no considerar que eses niveles se muestran igualmente característicos tanto del social cuanto del individual.

La interdependencia de la psicología individual, de la interpersonal y de la colectiva

La colaboración entre psicología y sociología se viabiliza na medida en que es afirmado el carácter interdependiente de la psicología individual, de la psicología interpersonal (también llamada psicología social) y de la psicología colectiva.
Esa interdependencia se consigue mediante los procedimientos operativos dialécticos y la aplicación del concepto de fenómenos psíquicos totales, haga vista las tres direcciones de las tensiones vividas como se revelando en eses fenómenos, direcciones ligadas en modo tan íntimo cuanto sus polos se muestran íntimamente ligados en los Nosotros, en los grupos sociales y en las sociedades globales, en que tales fenómenos están integrados parcial o completamente.

 

La comunicación entre Yo, Tu, él se establece con la ayuda de señales, signos y símbolos que únicamente la mentalidad colectiva que les sirve de base pode torna-los eficaces.

 

Esa unificación previa de la experiencia vivida, llevando a afirmar la interdependencia de la psicología individual, de la psicología interpersonal y de la psicología colectiva, especialmente la unificación de sus tensiones en el ámbito de un Nosotros, es puesta en relieve cuando se considera que la comunica entre Yo, Tu, él se establece con la ayuda de señales, signos y símbolos, que, cabe destacar, solamente la mentalidad colectiva que les sirve de base puede tornar-los eficaces.

Sem embargo, el sociólogo admite la existencia de los símbolos propiamente individuales, considerándolos raros y pobres en significación – dependen especialmente del dominio sexual, en el sentido analizado por Freud, al que ora nos reportamos.

A los estudiosos de la mentalidad colectiva importa más hacer sobresalir que todos los símbolos no freudianos muestran-se colectivos, interpersonales e individuales y valen al mismo tiempo en la psicología colectiva, en la psicología interpersonal y en la psicología individual.

Superar la introspección

Finalmente, deben buscar una metodología científica capacitada para llevar la psicología a resultados positivos, y sobrepujar efectivamente la introspección. Los niveles de realidad destacados para los efectos del análisis, por ese mismo análisis, deben ser repuestos en cuadros sociales precisos.

Así los comportamientos colectivos, las actitudes colectivas, los estados mentales, opiniones y actos colectivos, como niveles de realidad destacados para los efectos del análisis, bien como las expresiones, los señales, signos y símbolos colectivos deben ser repuestos en cuadros sociales precisos, a los cuales vienen integradas las llamadas situaciones conflituais – en las cuales la sociología psicoanalítica contemplaba como mencionado los conflictos entre los deseos individuales y los papeles sociales.

Sin duda, el alcance de esa reposición en cuadros sociales específicos está en aplicar los procedimientos operativos dialécticos, capacitados para excluir los abusos de la introspección.

Gurvitch tiene en vista una combinación de los tres métodos que ya comentamos. Vale decir, en el análisis interpretativo, simultáneamente psicológico y sociológico, la concepción behaviorista y el psicoanálisis deben ser combinadas y aplicadas a los fenómenos psíquicos totales, los cuales, vale insistir, se revelan simultáneamente colectivos, interpersonales e individuales.

Combinación de los tres métodos

Un ejemplo de como la reposición en los cuadros sociales lleva a la combinación de los métodos en tela, y acentúa que, por su vez, la toma en consideración de los fenómenos psíquicos totales es indispensable, es un ejemplo tirado de la experiencia de los etnólogos, en que la posibilidad de introspección es absolutamente derogada, e impracticable su utilización metódica, dado que la vida psíquica de los “primitivos” se presenta nítidamente distinta del psiquismo de los observadores.

Es el caso del cuadro social de una tribu salvaje cuyos gestos colectivos están observados por exploradores recién llegados. ¿Qué hacer? Sin proceder a la tentativa de interpretar las significaciones de las conductas observadas, Y penetrar hasta la comprensión de la mentalidad y de las creencias  de los agentes colectivos e individuales que en ellas participan, y sin enterar-se de las situaciones conflituais en que esas conductas están inseridas, aquellos exploradores y observadores no conseguirán determinar el carácter de los gestos delante de los cuales se encuentran y no conseguirán saber se están delante de los ritos religiosos, mágicos, jurídicos, ejercicios militares, o delante de las tentativas de trocas posibles, gestos de cortesía o de buenas venidas.

De esa forma, podemos ver que la descubierta de las significaciones prácticas revela el tipo de problema a que uno es llamado para solucionar, mediante la utilización de los procedimientos operativos dialécticos, favoreciendo la combinación de los métodos de la psicología moderna en su aplicación a los fenómenos psíquicos totales, elaborados como conceptos sociológicos.

 

Notas Críticas Sobre las Teorías de Interacción

 

 

Sin embargo, esas aclaraciones permanecen incompletas caso no tengan en cuenta la mirada crítica de la sociología diferencial sobre el formalismo de las teorías de interacción.

Con efecto, las teorías formalistas están refutadas en la medida en que toman por base la psicología interpersonal, promueven la técnica de estimación de los juzgamientos de valor portados por cada miembro de un grupo sobre cada uno de los otros (sociodrama o psicodrama), e valorizan la imitación.

La realidad social no admite reducción a una nuble de individuos idénticos, sino que, al contrario de eso, todas las interacciones, inter-relaciones, relaciones con los otros (interpersonales e intergrupales) o interdependencias presuponen y siempre se muestran fundadas sobre interpenetraciones, integraciones, participaciones directas, fusiones parciales en los Nosotros (actuales o virtuales), siempre concebidos como totalidades.

Psicodrama y sociodrama restan esfuerzos de autores que  hubieran sobrepujado los errores de Hobbes – pensador hace mucho dejado para tras –, pero que permanecieran parcialmente en desventaja debido a su psicologismo individualista, el cual los llevó a reducir la realidad social a relaciones de preferencia y de repugnancia interpersonales e intergrupales.

El error de Hobbes no ha sido el de tener investigado los elementos microscópicos e irreductibles de que es compuesta cualquiera unidad colectiva, pero sí el error de tenerlos encontrado fuera de la realidad social, en los individuos aislados e idénticos.

De ese modo, se estableció la referencia del atomismo social, como el conjunto de las concepciones individualistas y contractualistas que reducen la realidad social a una nuble de individuos idénticos. Cierto que el atomismo en la filosofía social de Hobbes es subsidiario del contractualismo, pero, a su vez, el atomismo social contemporáneo es dispensado de tal ligación. La visión de sociedad como constituida por individuos para la realización de fines que, primariamente, se ponen como fines individuales, se aplica al atomismo social tanto cuanto al utilitarismo.

En consecuencia, se comprende la razón porque el neoliberal típico habla de que no existe tal cosa como la sociedad. Pueden verlo, igualmente, que, hecha para desvalorizar la visión de sociedad, esa proposición proyecta tanto el atomismo social cuanto el utilitarismo [xviii].

Tal es la referencia del psicologismo individualista, que sitúa a los representantes del psicodrama en el mismo nivel del formalismo social, con la equivocada reducción de cualquier sociabilidad a mera interdependencia e interacción recíproca.

En esa limitada orientación, se preconiza como dije que, al nivel psicológico de la realidad social, cualquier interese está concentrado sobre la psicología interpersonal en detrimento de la psicología colectiva propiamente dicha, con desprecio de las funciones intelectuales y voluntarias, en favor del aspecto exclusivamente emotivo de la preferencia y de la repugnancia, con el aspecto más significante de la aspiración siendo así dejado de lado.

 

Imitación y Sentimiento Colectivo

 

Aunque la imitación tenga procedencia en la consciencia colectiva, predomina en esa última la oposición sociológica entre fusión o interpenetración de las consciencias, por un lado, y la su simples interacción o interdependencia, por otro lado.

Además, el fenómeno esencial de la psicología colectiva y que la insiere en el dominio de la sociología es la inmanencia recíproca y la dialéctica entre las consciencias colectivas y las consciencias individuales. La psicología interpersonal es parte del problema de la formación de un sentimiento colectivo.

Por tanto, sería ilegítimo designar por imitación la sumisión a los modos y a las costumbres, así como la participación en la efervescencia colectiva. Ambos los casos tratan de manifestaciones de la consciencia colectiva.

En la efervescencia de los grupos no ha ni modelo ni copia, sino fusión de cierto número de estados psíquicos en el seno de otro que deles se distingue, e que es el estado colectivo: en vez de imitación se debería hablar de creación, visto que de esa fusión resulta algo nuevo – resulta un sentimiento colectivo – siendo ese processus el único por el cual el grupo tiene la capacidad de crear.

El hecho de alguien se conformar con los modos y las costumbres, nada tiene a ver con imitación, que, en ese caso, es solamente aparente: el acto reproducido es tal no por haber se verificado en la nuestra presencia, o con el nuestro consentimiento. Por ejemplo, nuestra adhesión a la regla se dona en virtud del respeto inspirado peor las prácticas colectivas, y también por causa de la presión de la colectividad sobre Nosotros, para evitar la disidencia. Al contrario de imitación, conformar-se con las costumbres es estar consciente de la existencia de la consciencia colectiva, e inclinar-se delante de ella.

 

La Imitación y las relaciones con los otros

Es falsa la suposición de que las conciencias individuales perfectamente aisladas pueden entrar en contacto unas con las otras independientemente de cualquier recurso a la conciencia colectiva. Es igualmente falso que la reproducción imitativa puede no ser reducida a fenómenos de reproducción automática o "contagios", aplicables a los animales y al hombre, y que se afirman fuera de la vida social. Sin embargo, tal reproducción imitativa puede ser fundamentada en signos y símbolos [1].

Con respecto a esta tercera presuposición, podemos decir que, al imitar, por ejemplo, no el "estornudar" o el temor de otro, sino sus gestos, sus conductas conscientes, sus opiniones, sus actos reflejados, sus juicios, etc. la imitación presupone la comunicación de las conciencias por medio de señales y símbolos, y esa comunicación simbólica presupone a su vez la fusión o la interpenetración previa de las conciencias, es decir: presupone una conciencia colectiva que dé a los signos simbólicos significaciones idénticas para los participantes.[2]

► Más no es todo. En acuerdo con Gurvitch, saben que ningún contacto, ninguna interdependencia, ninguna imitación distinta del simple "contagio" son posibles entre las conciencias individuales de otra forma que no sea en el plano o en el horizonte de la conciencia colectiva. Durkheim se equivoca cuando, por efecto de su argumentación contra Tarde, llevándolo a reducir la imitación a la reproducción automática, llega a la conclusión de que la psicología interpersonal es inexistente y no pasa de otro nombre para la psicología individual tradicional.

Por contra, en la actualidad, ya se reconoce, dentro de la sociología, una psicología interpersonal e intergrupal, en conexión con la psicología colectiva. Se nota que la existencia de los Nosotros, por un lado, de los varios yo (diferenciados en la reflexión sobre la experiencia de cada uno, como personajes en sus círculos y papeles sociales) y de los otros, por otro lado, lleva a reconocer las relaciones mentales con los otros, es decir, las relaciones psíquicas entre Yo, Tú, él y entre los diferentes Nosotros, subrayando que esas relaciones presuponen la realidad mucho más compleja y rica de las manifestaciones de la sociabilidad.

El estudio de la imitación pone el problema de la realidad del otro, el alter ego, así como el problema de la validez de los signos y símbolos, cuya solución conduce necesariamente al estudio sociológico de los nosotros en la vida de los grupos sociales, y al estudio de los actos y estados mentales, que son las manifestaciones de la conciencia colectiva.

 

Los fenómenos de la psicología interpersonal, especialmente la comunicación simbólica, son inseparables de la psicología colectiva.

 

►Todavía, el análisis sociológico de los fenómenos de la conciencia prosigue y pone en cuestión la aplicación de las imágenes espaciales o espacializadas, sobre todo las imágenes de la interacción entre las conciencias, y la imagen de la repetición, incluso aquella en que la fusión de las conciencias individuales es comparada a una síntesis química, imágenes espacializadas éstas que destruyen la especificidad extra-espacial y total de la vida psíquica.[3].

Desde este punto de vista, por contra, se distingue en acuerdo con Gurvitch los fenómenos de la psicología interpersonal e intergrupal, por un lado, y por otro lado los fenómenos de la psicología colectiva propiamente dicha, subrayando que se trata de dos especies de fenómenos que no se excluyen y están profundamente unidos.

Es decir, los casos en que las conciencias comunican solamente por signos y símbolos, por expresiones mediatas y convergen, quedando o más o menos cerradas - tales fenómenos de la psicología interpersonal e intergrupal - no pueden ser consideradas de manera excluyente en relación a los otros casos, en que las conciencias pueden interpenetrarse directamente, a través de intuiciones más o menos actuales, originando frecuentemente las fusiones parciales de conciencias abiertas, teniendo por cuadros sociales los nosotros: tales los fenómenos de la psicología colectiva propiamente dicha.

Repeliendo en definitiva la aplicación de imágenes espacializadas, la unidad de esas dos especies de fenómenos - los fenómenos de la psicología interpersonal e intergrupal, por un lado, y los fenómenos de la psicología colectiva, por otro lado, se basan en lo siguiente: (a) Los fenómenos de psicología interpersonal, especialmente la comunicación simbólica, son inseparables de la psicología colectiva porque las relaciones entre Yo y los otros, así como la validez de los signos mediatos o signos simbólicos, presuponen la presencia actual o virtual de los Nosotros bajo su aspecto mental; (B) en contrapartida, es por intermedio del psiquismo interindividual e intergrupal que la conciencia colectiva amplia a menudo el círculo de su influencia, y atrae a veces nuevas participaciones.

La insuficiencia de la aplicación del principio de la inmanencia recíproca y de la implicación mutua por Durkheim, en estos puntos, explica su conclusión a favor de la preexistencia de la conciencia colectiva, como afirmándose antes de afectar la conciencia individual y penetrar en su interior.

De acuerdo con Gurvitch, tal argumento presupone equivocadamente el aislamiento entre las dos conciencias, la individual y la colectiva, aislamiento contrario a cualquier experiencia psicológica y que, en contra de la inmanencia recíproca y de la implicación mutua, sólo es posible concebir por la aplicación simplista a la Vida psíquica de los esquemas imaginarios espaciales (imagine dos sustancias químicas..., imagine dos personas..., etc.).

Además, evitando el refugio metafísico a que tal argumento de la preexistencia de la conciencia colectiva lo llevaría, y no dejándose conducir más allá de una ciencia efectiva como lo es la sociología, Durkheim (a pesar de su sociologismo de la metamóral [4]) admitirá que las conciencias individuales - por lo menos ellas - serían inmanentes a la conciencia colectiva, pero sin que la recíproca fuere verdadera.

Es por esa desviación que Durkheim afirmará al final de su polémica con Gabriel Tarde la constatación de la riqueza incomparable de la conciencia colectiva - de la cual las conciencias individuales no podrían entrever sino ínfimas partes.

 

 

***

 

Notas

 

§ Notas em relación al capítulo final "Notas Críticas Sobre las Teorías de Interacción"

[1] Aspecto este desenvolvido pelo notável psicólogo social americano G.H. Mead em sua obra “Mind, Self and Society”, de 1934.

[2] Em sociologia, a consciência coletiva exprime o fato social indiscutível da interpenetração virtual ou atual das várias consciências coletivas ou individuais, sua fusão parcial verificada em uma psicologia coletiva.

[3] A vida psíquica é como disse em fluxo.

[4] A moral teórica de Durkheim reconciliando o obrigatório e o desejável na comum dependência dos ideais criados pela sociedade sublimada no espírito é uma metamoral semi-sociológica e semimetafísica. Gurvitch a designará sociologismo da metamoral, utilizando designação idêntica à utilizada por importante colaborador de seu mestre Durkheim, que o foi Celestin Bouglé (1870-1940).

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Notas en relación a los demás capítulos.

[i] Nova versão aperfeiçoada e ampliadada do Texto Publicado em https://ssfrjbrforum.wordpress.com/2015/05/04/la-sociologia-de-la-vida-psiquica-delante-del-problema-de-la-comunicacion-social/

[ii] Ver Lumier, Jacob (J.): Psicologia e Sociologia: O Sociólogo como Profissional das Ciências Humanas, Internet, E-book Monográfico, 158 págs. Janeiro 2008, http://www.oei.es/noticias/spip.php?article2005 , pág.50.

[iii] Ver Dilthey, Wilhelm: “Introducción a las Ciencias del Espíritu: en la que se trata de fundamentar el estudio de la sociedad y de la historia”, tradução e prólogo por Eugenio Ímaz , México, Fondo de Cultura Económica, 1944, 485 pp. (1ªedição em Alemão, 1883).

[iv] Ver: Lumier, Jacob (J.): “Cultura e consciência coletiva-2“, Web da OEI, Junho 2009, pdf 169 págs. http://www.oei.es/cienciayuniversidad/spip.php?article388 , especialmente os capítulos 1 e 2.

[v] Ibid, ibidem.

[vi] Ibid, ibidem.

[vii] A expressão homem total designa o homem completo ou em reciprocidade de perspectiva e não o homem indiferenciado.

[viii] Ver Gurvitch, Georges (1894-1965): “O Conceito de Fenômenos Psíquicos Totais” in “Tratado de Sociologia - Vol.2”, Revisão: Alberto Ferreira, Iniciativas Editoriais, Porto 1968, (1ªedição em Francês: PUF, Paris, 1960). Op.cit.

[ix] Ver: Gurvitch, Georges: A Vocação Actual da Sociologia - vol. I: na senda da sociologia diferencial, tradução da 4ª edição francesa de 1968 por Orlando Daniel, Lisboa, Cosmos, 1979, 587 pags. (1ª edição em Francês: Paris, PUF, 1950). Op. Cit. Ver também do mesmo autor: “O Conceito de Fenômenos Psíquicos Totais” in “Tratado de Sociologia - Vol.2”, Op.Cit.

[x] Lefebvre, Henri: "Psicologia das Classes Sociais", in Gurvitch e al.: ‘Tratado de Sociologia - vol. 2’, tradução Almeida Santos, revisão Alberto Ferreira, Porto, Iniciativas Editoriais, 1968, pp.505 a 538 (1ªedição em francês: Paris, PUF, 1960). Op. Cit.

[xi] Sem embargo, se reconhece que o behaviorismo propagou a convicção de que a realidade do homem comporta uma objetividade científica.

[xii] A análise sociológica é a seguinte: considerando que no psiquismo coletivo tem lugar uma fusão prévia das consciências (assegurando a mesma significação aos signos e aos símbolos, como, p.ex., às palavras de uma língua), nota-se que o psiquismo interpessoal ou intergrupal implica os dois outros, pois, se esse psiquismo interpessoal é afirmado em suas manifestações na comunicação, nenhuma comunicação pode ter lugar fora do psiquismo coletivo. Ao mesmo tempo, são os psiquismos individuais que comunicam – o que supõe sua diferenciação tanto quanto sua fusão.

[xiii] Neste caso, as teorias dos papéis sociais dos sociólogos e antropólogos americanos como G.H. Mead, Znawiecki, Ralf Linton, Jacob Levy Moreno, e outros.

[xiv] Mauss, Marcel: ‘Sociologia e Antropologia-vol.I’, tradução Lamberto Puccinelli, São Paulo, EPU/editora da Universidade de São Paulo EDUSP, 1974, 240 pp. (1ªedição em Francês: Paris, PUF, 1950).  Do mesmo autor: ‘Sociologia e Antropologia-vol.II’, tradução Mauro Almeida, São Paulo, EPU/EDUSP, 1974, 331 pp.

[xv] Posicionamento que Gurvitch nota em Daniel Essetier, cf. “Psychologie et Sociologie”, Paris, 1927.

[xvi] Estudo publicado igualmente em “Sociologia e Antropologia”.

[xvii] Para Gurvitch, nas definições de Blondel sobre o campo do psíquico e sobre a procedência da consciência mórbida se atribui ao social uma parte demasiado limitada tornando essas definições pouco aceitáveis nos tempos recentes.

[xviii] Cf. Mark Redhead: Charles Taylor: Thinking and Living Deep Diversity, Rowman & Littlefield, 2002.

 

 

 

                                                                                                                                                                                                               

 

 

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